sábado, novembro 20, 2010

Um Vampiro no Umbral




Um Vampiro no Umbral




André_Luiz conta que, em "Nosso Lar", logo após às vinte e uma horas, chegou alguém dos fundos do enorme parque. Era um homenzinho de semblante singular, evidenciando a condição de trabalhador humilde. Narcisa recebeu- o com gentileza, perguntando:
– Que há, Justino? Qual é a sua mensagem? O operário, que integrava o corpo de sentinelas das Câmaras de Retificação, respondeu, aflito:
– Venho participar que uma infeliz mulher está pedindo socorro, no grande portão que dá para os campos de cultura. Creio tenha passado despercebida aos vigilantes das primeiras linhas.
– E por que não a atendeu? - interrogou a enfermeira.
O servidor fez um gesto de escrúpulo e explicou:
– Segundo as ordens que nos regem, não pude fazê-lo, porque a pobrezinha está rodeada de pontos negros.
– Que me diz? - revidou Narcisa, assustada.
– Sim, senhora.
– Então, o caso é muito grave.
Curioso, segui a enfermeira, através do campo enluarado. A distância não era pequena. Lado a lado, via-se o arvoredo tranqüilo do parque muito extenso, agitado pelo vento caricioso. Havíamos percorrido mais de um quilômetro, quando atingimos a grande cancela a que se referira o trabalhador.
Deparou-se-nos, então, a miserável figura da mulher que implorava socorro do outro lado. Nada vi, senão o vulto da infeliz, coberta de andrajos, rosto horrendo e pernas em chaga viva; mas Narcisa parecia divisar outros detalhes, imperceptíveis ao meu olhar, dado o assombro que estampou na fisionomia, ordinariamente calma.
– Filhos de Deus - bradou a mendiga ao avistar-nos -, dai-me abrigo à alma cansada! Onde está o paraíso dos eleitos, para que eu possa fruir a paz desejada.
Aquela voz lamuriosa sensibilizava-me o coração. Narcisa, por sua vez, mostrava-se comovida, mas falou em tom confidencial:
– Não está vendo os pontos negros?
– Não - respondi.
– Sua visão espiritual ainda não está suficientemente educada.
E, depois de ligeira pausa, continuou:
– Se estivesse em minhas mãos, abriria imediatamente a nossa porta; mas, quando se trata de criaturas nestas condições, nada posso resolver por mim mesma. Preciso recorrer ao Vigilante-Chefe, em serviço.
Assim dizendo, aproximou-se da infeliz e informou, em tom fraterno:
– Faça o obséquio de esperar alguns minutos.
Voltamos apressadamente ao interior. Pela primeira vez, entrei em contacto com o diretor das sentinelas das Câmaras de Retificação. Narcisa apresentou-me e notificou-lhe a ocorrência. Ele esboçou um gesto significativo e ajuntou:
– Fez muito bem, comunicando-me o fato. Vamos até lá.
Dirigimo-nos os três para o local indicado.
Chegados à cancela, o Irmão Paulo, orientador dos vigilantes, examinou atentamente a recém-chegada do Umbral, e disse:
– Esta mulher, por enquanto, não pode receber nosso socorro. Trata-se de um dos mais fortes vampiros que tenho visto até hoje. é preciso entregá-la à própria sorte.
Senti-me escandalizado. Não seria faltar aos deveres cristãos abandonar aquela sofredora ao azar do caminho? Narcisa, que me pareceu compartilhar da mesma impressão, adiantou-se suplicante:
– Mas, Irmão Paulo, não há um meio de acolhermos essa miserável criatura nas Câmaras?
– Permitir essa providência - esclareceu ele -, seria trair minha função de vigilante.
E indicando a mendiga que esperava a decisão, a gritar impaciente, exclamou para a enfermeira:
– Já notou, Narcisa, alguma coisa além dos pontos negros?
Agora, era minha instrutora de serviço que respondia negativamente.
– Pois vejo mais - respondeu o Vigilante-Chefe.
Baixando o tom de voz, recomendou:
– Conte as manchas pretas.
Narcisa fixou o olhar na infeliz e respondeu, após alguns instantes:
– Cinqüenta e oito.
O Irmão Paulo, com a paciência dos que sabem esclarecer com amor, explicou:
– Esses pontos escuros representam cinqüenta e oito crianças assassinadas ao nascerem. Em cada mancha vejo a imagem_mental de uma criancinha aniquilada, umas por golpes esmagadores, outras por asfixia. Essa desventurada criatura foi profissional de ginecologia. A pretexto de aliviar consciências alheias, entregava-se a crimes nefandos, explorando a infelicidade de jovens inexperientes.
A situação dela é pior que a dos suicidas e homicidas, que, por vezes, apresentam atenuantes de vulto.
Recordei, assombrado, os processos da medicina, em que muitas vezes enxergara, de perto, a necessidade da eliminação de nascituros para salvar o organismo materno, nas ocasiões perigosas; mas, lendo-me o pensamento, o Irmão Paulo acrescentou:
– Não falo aqui de providências legítimas, que constituem aspectos das provações redentoras, refiro-me ao crime de assassinar os que começam a trajetória na experiência terrestre, com o direito sublime da vida.
Demonstrando a sensibilidade das almas nobres, Narcisa rogou:
– Irmão Paulo, também eu já errei muito no passado. Atendamos a esta desventurada. Se me permite, eu lhe dispensarei cuidados especiais.
– Reconheço, minha amiga - respondeu o diretor da vigilância, impressionando pela sinceridade -, que todos somos espíritos endividados; entretanto, temos a nosso favor o reconhecimento das próprias fraquezas e a boa-vontade de resgatar nossos débitos; mas esta criatura, por agora, nada deseja senão perturbar quem trabalha.
Os que trazem os sentimentos calejados na hipocrisia emitem forças destrutivas. Para que nos serve aqui um serviço de vigilância?
E, sorrindo expressivamente, exclamou:
– Busquemos a prova.
O Vigilante-Chefe aproximou-se, então, da pedinte e perguntou:
– Que deseja a irmã, do nosso concurso fraterno?
– Socorro! socorro! socorro!... - respondeu lacrimosa.
– Mas, minha amiga - ponderou acertadamente -, é preciso sabermos aceitar o sofrimento retificador. Por que razão tantas vezes cortou a vida a entezinhos frágeis, que iam à luta com a permissão de Deus?
Ouvindo-o, inquieta, ela exibiu terrível carantonha de ódio e bradou:
– Quem me atribui essa infâmia? Minha consciência está tranqüila, canalha!... Empreguei a existência auxiliando a maternidade na Terra. Fui caridosa e crente, boa e pura...
– Não é isso que se observa na fotografia_viva_dos_seus_pensamentos_e_atos. Creio que a irmã ainda não recebeu, nem mesmo o benefício do remorso. Quando abrir sua alma às bênçãos de Deus, reconhecendo as necessidades próprias, então, volte até aqui.
Irada, respondeu a interlocutora:
– Demônio! Feiticeiro! Sequaz de Satã!... Não voltarei jamais!... Estou esperando o céu que me prometeram e que espero encontrar.
Assumindo atitude ainda mais firme, falou o Vigilante-Chefe com autoridade:
– Faça, então, o favor de retirar-se. Não temos aqui o céu que deseja. Estamos numa casa de trabalho, onde os doentes reconhecem o seu mal e tentam curar-se, junto de servidores de boa-vontade.
A mendiga objetou atrevidamente:
– Não lhe pedi remédio, nem serviço. Estou procurando o paraíso que fiz por merecer, praticando boas obras.
E, endereçando-nos dardejante olhar de extrema cólera, perdeu o aspecto de enferma ambulante, retirando-se a passo firme, como quem permanece absolutamente senhor de si.
Acompanhou-a o Irmão Paulo com o olhar, durante longos minutos, e, voltando-se para nós, acrescentou:
– Observaram o Vampiro? ...
Exibe a condição de criminosa e declara-se inocente; é profundamente má e afirma-se boa e pura; sofre desesperadamente e alega tranqüilidade; criou um inferno para si própria e assevera que está procurando o céu.
Ante o silêncio com que lhe ouvíamos a lição, o Vigilante-Chefe rematou:
– é imprescindível tomar cuidado com as boas ou más aparências. Naturalmente, a infeliz será atendida alhures pela Bondade Divina, mas, por princípio de caridade legítima, na posição em que me encontro, não lhe poderia abrir nossas portas.


[32 - páginas 168/174] - André Luiz

Fonte: Carlos Eduardo Cennerelli


Nenhum comentário:

Calendário Assistência 2018

TENDA ESPÍRITA MAMÃE OXUM

CALENDÁRIO ASSISTÊNCIA - 2018

C.E. Miguel Arcanjo e Tenda Espirita Mamãe Oxum-

Rua Francisco Framback, 91 E – Cascatinha - Petrópolis - RJ

BAIXE O CALENDÁRIO 2018, CLICANDO AQUI

ABRIL

MAIO

JUNHO

06 – sexta-feira – Pretos Velhos

02 – quarta-feira – Palestra

11 – quarta-feira – Estudo daUmbanda

04 - sexta-feira – Pretos Velhos

01 – sexta-feira – Pretos-Velhos

06 – quarta-feira – Estudo da Umbanda

13 – sexta-feira - Saúde

09 - quarta-feira- Estudo da Umbanda

08 – sexta-feira – Saúde

18 – quarta-feira – Doutrina Vovó Catarina

11 - sexta-feira – Saúde

13 – quarta-feira – Saudação Aos Exus – Bênção dos Pães – 20h

20 – sexta-feira - Caboclos

13 – Domingo – Saudação aos Pretos Velhos

Às 18h

15 – sexta-feira – Caboclos

23 – segunda-feira – Saudação Ogum – 20h

25 – quarta-feira – Reunião Interna

16 – quarta-feira – Doutrina - Vovó Catarina

20 – quarta-feira – Doutrina – Vovó Catarina

18 – sexta-feira – Caboclos

22 – sexta-feira – Exus

27 – sexta-feira – gira dos Malandros

25 – sexta-feira –Saudação à Sta. Sara,Povo Cigano

27 – quarta-feira – Reunião Interna

30 – quarta-feira – Reunião Interna

29 – sexta-feira – Não tem Gira

JULHO

AGOSTO

SETEMBRO

04 – quarta-feira – Palestra

01 – quarta-feira – Palestra

06 – sexta-feira – Pretos Velhos

03 – sexta-feira – Pretos Velhos

05 – quarta-feira – Doutrina

11 – quarta-feira – Estudo da Umbanda

08 – quarta-feira – Estudo da Umbanda

07 – sexta-feira – Não tem Gira

13 – sexta-feira – Saúde

10 – sexta-feira – Saúde

12 – quarta-feira – Estudo da Umbanda

18 – quarta-feira – Doutrina – Vovó Catarina

12 – domingo – Calunga – 09h

14 – sexta-feira – Saúde

20 – sexta-feira – Caboclos

16 – quinta-feira – Saudação à Obaluaê e Omolu 20h

19 - quarta-feira – Doutrina – Vovó Catarina

25 – quarta-feira – Reunião Interna

17 – sexta-feira - Não tem Gira

21 – sexta-feira – Não Tem Gira

27 –– sexta-feira - Malandros

22 – quarta-feira – Doutrina – Vovó Catarina

23 – Domingo – Saudação à Ibeijada - às 17h

24 – sexta-feira – Caboclos

31 – sexta-feira - Exus

27 – quinta-feira – Distribuição Doces 15h

28 – sexta – feira - Ciganos

OUTUBRO

NOVEMBRO

DEZEMBRO

.03 – quarta-feira – Reunião Interna

01 – quinta-feira – Esteira das Almas

01 - Confraternização

05 – sexta-feira – Pretos Velhos

02 – sexta-feira – Não tem Gira

07 – sexta-feira – Saudação à Oxum e bênção dos Pretos Velhos – 20h

12 – quinta-feira – Cachoeira / Mata

07 – quarta-feira –Doutrina

08 – Oferendas na Praia – saída 17h

09 - sexta-feira – Saúde

17 – quarta-feira – Estudo da Umbanda

15 – Feriado – Saudação aos Orixás

19 – sexta-feira – Caboclos

16 – sexta-feira – Não tem Gira

24 – quarta-feira – Doutrina – Vovó Catarina

23 – sexta-feira – Exus

26 – sexta-feira - Malandros

29 – quarta-feira – Doutrina – Vovó Catarina

30 – sexta-feira –Festa da Malandragem

A giras de sextas-feiras têm início às 20 horas. As fichas são distribuídas a partir de 19:45 até as 21:30. As pessoas que chegarem após este horário receberão apenas o passe, sem consulta.

Nossa casa não cobra consultas nem trabalhos, porém aceitamos colaboração de materiais de uso como velas, fósforos, charutos, fumos, etc...

ATENÇÃO: NÃO É PERMITIDO NO RECINTO PESSOAS COM MINI-SAIAS, SHORTS OU BERMUDAS CURTAS, BLUSAS MUITO DECOTADAS OU MINI-BLUSAS, CAMISETAS TIPO MACHÃO.

A CARIDADE NÃO SERÁ NEGADA, PORÉM RESPEITEM O TEMPLO RELIGIOSO.


BAIXE O CALENDÁRIO 2018, CLICANDO AQUI



Printfriendly

Djalem