segunda-feira, março 14, 2011

Raul Seixas um roqueiro no além




DROGAS: UM ALERTA PARA OS PAIS E AS ESCOLAS

NUNCA DESISTA DE SEU FILHO


Um tipo está se tornando comum nas famílias de hoje:

aquele jovem de cabelos caídos sobre os olhos, calças largas com o fundo na altura dos joelhos, camisa folgada e o olhar voltado para o chão.


Num estranho paradoxo, ao tempo em que não quer ser notado, chama atenção pela forma de se vestir e se comportar.
Afinal de contas, como entendê-los? Como se aproximar desse jovem que tenta se isolar do mundo embora se movimente em meio aos demais familiares?
Ele quase não fala. Emite monossílabos, afirmando ou negando, quando questionado sobre algum assunto que lhe diz respeito.
Embora difíceis de entender e de amar, são jovens que de alguma forma estão pedindo socorro, desejam que alguém os ajude a sair da concha na qual se colocaram na tentativa de fugir da realidade.
Apesar da situação difícil, os pais conscientes não deixam de semear no solo da inteligência deles e esperam que um dia suas sementes germinem.
Durante a espera pode haver desolação, mas, se as sementes são boas, um dia germinarão, mesmo que os filhos tomem o caminho das drogas, desrespeitem a vida e não parem em emprego algum.
Talvez alguns pais estejam vivendo uma situação dessas.
Seus filhos estão vivendo profundas crises. Eles recusam um tratamento e são indiferentes às lágrimas das pessoas que os amam.
O que fazer, então? Desistir deles? Certamente não, mas comportar-se como o pai do filho pródigo.
O filho desistiu do pai, mas o pai nunca desistiu do filho.
O filho partiu, mas o pai aguardou. O pai esperava diariamente que ele aprendesse na escola da vida as lições que não aprendeu com seus conselhos amorosos.
Por fim, a grande vitória. A dor rompeu a casca das sementes que o pai plantou e lapidou silenciosamente a personalidade do filho.
Ele voltou. Adquiriu profundas cicatrizes na alma, mas estava mais maduro e experiente. O pai não condenou o filho injusto, mas fez-lhe uma grande festa.
Ninguém compreendeu. Mas não é necessário, pois o amor é incompreensível.
Seguindo o exemplo do pai do filho pródigo, citado na parábola, jamais deveremos abandonar a batalha da educação.
Podemos chorar, mas jamais desanimar.
Podemos nos ferir, mas jamais deixar de lutar.
Devemos ver o que ninguém vê. Enxergar um tesouro soterrado nas rústicas pedras do coração dos nossos filhos indiferentes.

***

Nunca desista de seu filho!
Quanto mais rebelde, mais necessita do seu aconchego.
É sempre bom lembrar que sob essa aura de rebeldia do jovem ou do adolescente, tem uma criança frágil pedindo socorro.
Se os pais desistirem dele, quem lhe dará atenção e carinho?
Quem irá recebê-lo quando, um dia, açoitado pelas tempestades da vida ele retornar, sofrido, com profundas cicatrizes na alma, mas ainda menino?
Sim, aquele menino que um dia você segurou nos braços com tanta ternura...
Pense nisso, e nunca desista de seu filho!


Equipe de Redação do Momento Espírita, com base no capítulo 7, parte 1, do livro Pais Brilhantes, professores fascinantes, de Augusto Cury, Ed. Sextante.




O Jovem Kako


“As janelas se abrem para a vida, mas...”

Sinto-me hoje como se estivesse transposto, após densas torturas e solidão, um túnel escuro1 cujo tempo parou numa dor enorme, sem nome para descrever como começou meu sofrimento. Eu sei passo a passo como me destruí, como me esfacelei no desespero maior.

Jovem ainda, tímido e inseguro, admirava as companheiras de turma que lideravam e organizavam festas. Família ajustada relativamente feliz, era apoiado por exemplos e conselhos e muita esperança no meu futuro.

Inteligente, era procurado por colegas para auxiliá-los, mas ao mesmo tempo, procuravam lançar-me a semente da dúvida, se valeria tanto esforço, quando tantos não estudavam, tantos eram ricos em troca de poucos esforços nos negócios. Não percebi como era dilapidado, solapado na alma ingênua e dócil.

Quando minhas companhias e minhas atitudes começaram a assustar meus pais, me revoltei, senti-me pressionado, sem razões que justificassem as atitudes deles. E teve início então, meu roteiro doloroso, minha via-crúcis pelas quebradas da vida. Copos quebrados, pontapés em portas, agressões físicas; a mãe adorada e frágil tornou uma incômoda presença, me lancei de cabeça nas drogas que, pois cada vez mais, me pareciam um recurso, e mergulhei na decadência do sonho e do desrespeito.

Quando busquei os amigos, por não suportar mais, até a convivência comigo mesmo; eles se afastavam e riam. Muitas vezes fui deixado só nas portas dos bares noturnos, a dormir com os cães, repartindo a cama da sarjeta. Nenhuma mão, nenhum apoio daqueles que haviam me atirado no abismo da delinqüência e do vício.

_Mas como esperar apoio das mãos que empurravam para a queda? Encontrava nos olhos marcados de pranto da minha mãe o carinho e a dor; nas mãos que comprimiam a fronte de meu pai, a angústia. Mas eu sentia-me fraco e não reagia e, num dia frio com minha alma e lodacento com meu caráter, uma overdose arrebatou-me para as trevas da morte.

Foi horrível; era como despencar num labirinto de gargalhadas e gritos zombeteiros que me acolhiam na morte não esperada, não programada, porque eu queria viver, queria libertar-me, ser como tantos jovens que passavam alegres e saudáveis, sem a obsessão daquela idéia fixa e maldita...

Como descrever meu pânico, meu temor, ao visualizar cenas dantescas de jovens que haviam partido como eu e que tais quais duendes enlouquecidos, arrastavam consigo as marcas indeléveis com que haviam ferido o próprio espírito.

Hoje o céu ainda é tenebroso, mas cintilam estrelas pequeninas de esperança. Parti tão jovem, com 25 anos. Poderia estar hoje na Terra, com uma família, passear com filhos, trabalhar, chegar em casa cansado, sonhar, viver, e o que tenho?

--Nada! Remorsos pelo tempo perdido, desespero por ter sido abraçado pela morte que, de forma inexorável, acolhe os imprevidentes e indiligentes.

Socorrido por piedade de Deus, espero nova programação terrena, onde segundo me afirmam, trarei um corpo enfermo e sem beleza das formas que eu não soube valorizar e respeitar. Terei uma família difícil, para aprender a valorizar o ninho de amor e apoio que eu perdi com minha insensatez. Meu testemunho não está sendo fácil, é como desnudar o espírito, mas é necessário para aqueles que caminham na Terra...

As janelas se abrem para a vida, mas nós escolhemos se deixamos entrar o sol ou as sombras do mal. Nas noites vazias de Deus e repletas da multidão de ociosos é que se esconde o vício, o crime, a solidão e a morte. Vivamos com paz na alma, dando graças pela benção da juventude e sabendo que amigos não nos empurrarão jamais para o vício e o desrespeito, mas para o aprimoramento dos nossos deveres, para o cumprimento dos nossos compromissos com a família, com a sociedade e com nós mesmos.

Que Deus nos guarde a todos!

Espírito de Marcos, Kako

A história de Kako se repete todos os dias, infelizmente, para muitos lares, esta sentença de dor é o resultado criado pelos caminhos da toxicomania.

Mensagem extraída do Livro “Unidos pela Saudade” recebido por psicofonia
pela médium Shyrlene Soares Campos, do Núcleo Servos de Maria de Nazaré, Uberlândia – M.G





Mensagem de uma Jovem Universitária da USP

Como aluna da USP, me sentia uma pessoa privilegiada e vencedora. Tinha um grupo grande de amigos que me incensava a vaidade, e que em festas sucessivas me levava às primeiras experiências com LSD.

Como eu passava longo tempo fora do lar, com justificativa de estudo em grupo, meus pais nunca se deram conta do meu vício. Mergulhei durante um ano em secretas viagens alucinatórias. Era usar o ácido e os rostos se deformavam. Via flores gigantes, pássaros coloridos de plumagens belas e, às vezes, caras tortas, deformadas e contorcidas. Era a pior face do vício.

Surgiu então, em meu caminho, um novo colega, o tipo careta, bonzinho, ajuizado. A atração que sentimos foi muito forte e, embora sabendo que eu era desajustada, apoiava-me e impedia-me, às vezes, de participar de cenas.

Como eu não me dispunha de mudar de vez, e a trocar de companhias, ele terminou o namoro às vésperas de um feriado longo. Chorei muito. Esperava que ele retornasse pela força do nosso amor. Viajei com a turma para Guarujá, mais para desforrar a viagem que ele fizera para o interior, onde morava antiga namorada dele.

Minha família se preocupou com minha depressão. Ignorava que o rompimento era por eu não romper com as drogas. Na praia mergulhei fundo em bebida alcoólicas e LSD.

Uma tarde, no apartamento, todos viajando, cada um a seu modo, vi um “anjo” que me chamava na janela. Comecei a gritar eufórica. Os amigos me seguravam, mas me desvencilhei deles e mergulhei solta no espaço. Não havia anjo, havia ácido no meu cérebro.

Tudo isso ocorreu em 1970. Meu namorado soube depois. Ele foi acusado de ser o culpado do meu suicídio. Todos queriam salvar a própria pele e diagnosticaram como forte depressão o que era alucinação.

Ele aceitou a situação sem se defender e manchar o meu nome. Fiquei como a pobre coitadinha e não como uma irresponsável que não soube agradecer tudo de grandioso que recebeu em oportunidades da vida.

Sofri muito no Plano Espiritual. Monstros me acompanhavam, seres em decomposição, cheiro fétido envolvia em gases peçonhentos tudo que me cercava.

Quando amparada pelo meu pai, que sofrera um enfarte e viera para o Plano Espiritual, oito anos depois da minha partida, me reajustei, e a grande verdade veio à tona.

Me dirijo aos jovens. Minha família está bem, mas muitos jovens como eu estão dando os primeiros passos na estrada do auto-extermínio.

Detenham-se enquanto podem recuar. A realidade da vida é bela, e vocês não terão como vivê-la se drogando.

Detenham os passos nessa senda destruidora, nessa fogueira que queima nossa saúde, nossos sonhos, nossas vidas.

Vida, sempre!

Drogas, não!

Espírito, V... M...

Psicografia Shyrlene Soares Campos
Fonte Jornal Arauto de Luz Número 16 de Junho 1999




No vale dos drogados

Relato de uma projeção astral

Por Victor Rebelo


Certa noite, já de madrugada, percebi que estava projetado fora do corpo em um pântano escuro e tenebroso. Não sei como fui parar lá, mas com certeza fui levado pelos amparadores espirituais, pois participei de um trabalho de assistência extrafísica.

O que mais me surpreendeu não foi o local, mas os espíritos que encontrei lá. Conforme caminhava, ia passando por vários jovens desencarnados caídos naquele chão imundo. Escutava gemidos e uma energia de medo e dor vibrava no ambiente. Muitos espíritos puxavam minhas pernas, outros estavam completamente atordoados, indiferentes à minha presença.

Andei um pouco por aquela multidão de infelizes. Todos pareciam ainda estar sob o efeito das drogas, completamente sugados em sua vitalidade, sem forças para se levantar.

Em determinado momento, senti a necessidade de me sentar no chão, mesmo sem saber ao certo o motivo. Logo que fiz isso, uma jovem aparentando uns 19 anos, loira, aproximou-se de mim muito amedrontada. Não sabia onde estava nem o que estava acontecendo. Sentou-se ao meu lado e me abraçou, na ânsia de se proteger daquilo tudo.

Não sei quanto tempo ela ficou abraçada em mim. Na verdade, a percepção do tempo varia de acordo com o plano em que nos manifestamos. Só sei que fui me sentindo cada vez mais fraco, até perder a consciência e despertar no corpo físico.

O que aconteceu é fácil de entender. Fui levado pelos amparadores à uma região umbralina onde muitos espíritos que desencarnaram devido ao uso de drogas estavam reunidos, de acordo com a lei de afinidade. Muitos espíritos ainda ficam sob o efeito de drogas devido à ligação energética que têm com seus corpos e com a energia de determinada droga. Suas mentes estão cristalizadas no vício, fazendo com que fiquem por tempo indeterminado naquelas regiões. Mas alguns, devido ao próprio carma ou a uma vontade sincera, se encontram em condições de sair desses lugares e buscar apoio nos hospitais extrafísicos. Era o caso daquela jovem. É bem provável que ela tivesse desencarnado por overdose recentemente e por isso, seu corpo astral estava muito denso. Como se encontrava fraca, somente alguém encarnado, temporariamente afastado do corpo poderia doar energia vital mais densa, para que ela pudesse ser tratada posteriormente pelos amparadores, que devido ao plano de manifestação, irradiam energias mais sutis.

É claro que nem todos os espiritos que desencarnam sob o vício das drogas se dirigem a este vale. Cada caso é um caso. Tudo é uma questão de afinidade.




O ESPÍRITO DE UM DROGADO


Comunicação de um Espírito de ex-drogado, narrando suas experiências quando na Terra e agora na Vida Espiritual.


- Poderíamos conversar com um Espírito que teve experiência com drogas?


Resposta: Cá estou, pois esta visita já estava na programação da casa para esta noite.

- Disseste que já estavas aqui ou vieste pela evocação?

Resposta: Já estava aqui, trazido pelos amigos espirituais responsáveis pelo trabalho.


- Poderias nos falar sobre tua experiência com as drogas?

Resposta: Perguntem e responderei dentro do possível e do que me for permitido.

- Vivestes muito tempo na Terra?

Resposta: Dezoito anos.

- Tão jovem e já tinhas envolvimento sério com a droga?

Resposta: Desde os quatorze anos.

- Moravas onde?

Resposta: Rio de Janeiro.


- Como foi teu envolvimento?

Resposta: Iniciei, na verdade, aos onze anos, com consumo de cigarros de maconha, no bairro onde morava, como brincadeira entre meus amigos.

- Onde conseguias a maconha?

Resposta: Nas mãos dos pequenos traficantes do bairro, nos vendedores de quinquilharias das calçadas. Era muito fácil.

- E seus pais? Sabiam dessa sua experiência?

Resposta: No início não sabiam. Quando tomaram conhecimento encararam como coisa normal dos tempos da adolescência moderna. Só mais tarde perceberam a gravidade da situação.

- Com quais tipos de drogas tiveste envolvimento?

Resposta: Com as piores. Aos quatorze anos entrei em contato com a cocaína e daí para para o crack foi um pulo.

- Foi o crack que o levou à morte?

Resposta: Não. Fui assassinado.

- Como foi?

Resposta: Em briga de rua, por ponto de venda da droga, pois tornei-me um traficante para sustentar meu vício.


- E a família?

Resposta: Depois de muitas tentativas de me retirar das ruas, deixaram-me jogado à própria sorte.

- Lamentas esta atitude deles?

Resposta: Não. Lamento minha cegueira. Eles nada podiam fazer por mim, além do que fizeram. Não tinhas os recursos necessários para dar-me o que necessitava.

- E do que necessitavas?

Resposta: Compreensão maior dos mecanismos da vida.


- Foi isso que o levou a procurar as drogas?

Resposta: No início não. Mas depois, em minha adolescência, quando já me envolvera com as drogas mais pesadas, fazia "viagens" incríveis pelo meu mundo íntimo e buscava uma paz interior que não encontrara em casa, nem nas ruas. Em minha falta de lucidez, achava que encontraria nas drogas e na condição mental que elas me favoreciam.


- Que condição?

Resposta: A total inconsciência dos meus atos, o mergulho em um mundo de ilusões e desespero, a entrega total aos devaneios insanos do desequilíbrio.


- Algumas vezes refletias sobre isso? Quiseste deixar as ruas?

Resposta: Muitas vezes, mas em nenhuma delas encontrei compreensão e condições favoráveis para livrar-me daquilo.


- Tiveste outras experiências?

Resposta: Em que sentido perguntam?


- Outras experiências que poderiam servir para o aprendizado de todos?

Resposta: Sim. Quando se entra no mundo das drogas perde-se a noção de limites.

Tudo passa a ser permitido.

Prostitui-me muitas vezes para conseguir dinheiro e isso talvez tenha sido muito pior que o próprio vício, pois injetar um veneno em suas veias não traz consequências morais tão graves quanto vender seu próprio corpo, por livre vontade, sabendo do ato imoral e insano que se está praticando.

Claro, não estou dizendo que se drogar é melhor que se prostituir, mas que o vício às vezes é irresistível e foge às nossas frágeis forças de resistência física e espiritual, e que o outro ato, neste caso, é perfeitamente evitável se assim o quisermos.


- Como foi sua morte?

Resposta: Já falei que foi por motivo fútil. Um companheiro de infortúnio (que também já está deste lado), atirou em minha cabeça, em uma tola disputa de "ponto".


Ele mesmo se arrependeu logo em seguida, pois um dia tínhamos sido amigos inseparáveis. Mas a droga nos faz enfrentar uma lei que é desconhecida dos homens das leis comuns.

É selvagem e destruidora. Para os drogados não existem barreiras que possam contê-los no momento em que dela necessita.

- Tua desencarnação foi dolorosa?

Resposta: Nada senti. Continuei vivo e não compreendia como as pessoas não me viam.

Convivi com os "amigos" por um tempo para depois tomar consciência de minha condição de "morto".


E foi aí que sofri os horrores decorrentes da falta de responsabilidade com a vida.


- Foste amparado?

Resposta: Sim, depois de certo tempo, por familiares.


- E teus pais?

Resposta: Só tomaram conhecimento pelos jornais locais, que alardeiam a miséria e desgraça humanas.


- Que sentimento os animou?

Resposta: Depois eu soube que foi de grande alívio. E assim deveria ser mesmo, pois só trouxe a eles a desilusão e a dor.

- Tiveste uma infância agradável?

Resposta: Tive tudo o que quis. Meus menores desejos eram satisfeitos. Fui rico até a idade de 10 anos, quando houve um reviravolta na vida dos meus pais. Eles separaram-se e eu fui morar com meus avós. Depois aproximei-me mais de minha mãe, no início de meu martírio pelo mundo das drogas.


- E hoje? Visita-os?

Resposta: Não. Estou já bem recuperado, mas não tenho notícias deles. Acho que cuidam de suas vidas e rogo a Deus que cuidem bem, para que não sofram tanto, quando para cá vierem.

- Sofreste aí?

Resposta. Muito. Principalmente ao saber do desperdício que havia sido minha vida.

- Porquê? Tinhas outra programação de vida?

Resposta: Sim. Poderia permanecer até a sexta década de vida, com tarefa séria e edificante na área da saúde, oportunidade que me foi dada pelo Alto para redenção de meus débitos.

Mas desperdicei no exercício do livre arbítrio, auxiliado pelas características familiares onde me encontrava. Sequer terminei o curso básico.

A escola foi para mim um palco de minhas farras com outros colegas igualmente dementes.


- Então és um suicida?

Resposta: Sim, no sentido que se empresta a essa palavra, pois fui em parte o artífice de minha morte, mas não com a conotação e a gravidade de um suicida comum. Os drogados são vistos aqui de outra forma.


- De que forma? Vítimas?

Resposta: Sim, em parte, pois na verdade alguns são vítimas da degradação social pela qual passa a humanidade, sem deixar de considerar o livre arbítrio de cada um. A droga é a grande arma destruidora das esperanças dos jovens do mundo inteiro.

- Poderias explicar um pouco mais essa parte?

Resposta: Muitos lançam-se cedo no mundo dos vícios pela falta de base moral familiar, cujos pais não preparam. Cedo, entregam-se a atitudes inadequadas e não são devidamente orientados.


A permissividade existente no mundo atual é mostra de que os pais não estão preparados para construir o homem do futuro.

A droga, sendo uma das formas de escravizar o homem, na verdade é um resultado da ganância desenfreada do próprio homem que destrói seus próprios filhos e assim sucessivamente.

Os grandes donos do esquema arrecadam montanhas de dinheiro que amanhã deixarão para seus filhos, netos e bisnetos, não percebendo que constroem o material e destroem o essencial.

Essas próprias criaturas, para as quais constroem seus impérios, são vítimas e escravos de seu próprio veneno.

Assim é na cidade onde vivi.


- Vives em colônia ou estás em hospital?

Resposta: Encontro-me em colônia próxima à Terra, de acordo com meu grau evolutivo.

- Existem colônias específicas para atender vítimas de vícios?

Resposta: Não tenho conhecimento disso, mas meu instrutor diz que aqui são atendidos todos os necessitados da alma, quaisquer que sejam os vícios.

É uma colônia muito grande e onde se encontram muitos jovens.

Naturalmente ainda estamos nessa condição pela nossa pouca compreensão.

A forma física não importa, mas a maturidade de Espírito.


- Ainda podemos perguntar mais coisas?

Resposta: Necessito afastar-me por orientação do amigo que me dirige as ações e pensamentos neste trabalho.

Deixo aqui minha gratidão pela oportunidade e que os bons Espíritos amparem todos os homens que um dia pensaram em envenenar-se por desconhecer as leis que regem a vida".


- Um Espírito sofredor, agradecido.


Espírito: Um Espírito sofredor
Sociedade de Estudos Espíritas Allan Kardec
São Luís, MA




Narrativa de um Viciado "Morto"

Médium Shyrlene Soares Campo
"Meu nome é Cláudio. Desencarnei em acidente, devido ao excessivo consumo de álcool e drogas. Tinha nas mãos todos os recursos para vencer, segundo os moldes da vida. Não vou afirmar que fui alucinado por más companhias. Todos nós buscamos as pessoas com as quais mais nos identificamos.

Se derrapei no mal e fui vampirizado por entidades que me torturaram o corpo e posteriormente o espírito, se desci à mais negra degradação, se entorpeci meus sentidos anulando-me fisicamente, só a mim cabe a culpa.

Fui aquinhoado com inteligência, pais amoráveis, segurança financeira. Nunca me faltou dinheiro, amigos, confiança. Essa excessiva confiança, talvez, tenha sido a causa maior de minha falência.

Quando comecei a trilhar os primeiros passos do vício, e pedir dinheiro e mais dinheiro, se meus pais tivessem me observado, me acompanhado, se tivessem sido mais vigilantes e menos pródigos, talvez meu caminho tivesse sido outro.

Mergulhei em sofrimentos inenarráveis. Sofri todas as torturas, conheci o "inferno" de perto. Eu que nasci talhado para vencer, conheci os abismos insondáveis das torpezas humanas e espirituais.

Jovens, sêde prudentes! Valorizem os tesouros da vida, se amparem nas leituras edificantes, fujam dos amigos da noite e das horas vazias.

Quando socorrido numa colônia abrigo para desintoxicação, rememorei meus dias passados, minha bola colorida, meu velocípede, meus livros, meus discos, meus pratos prediletos, meu bombom favorito. Chorei de desespero com saudade do menino que fui.

Ah! Se eu pudesse transformar num passe de mágica o tempo que vivi eu mudaria tudo. Mas, não tenho mais tempo... Perdi minha chance.

Me resta agora o arrependimento, a dor, a saudade.

Meu Deus, como sou infeliz! Mas queixas não transformam destino.

Agora é recomeço difícil. Quase nada conheci, nem pude realizar. Na próxima vida, muito menos farei. Renascerei num lar pobre com pessoas desconhecidas e que precisam da prova de um filho mongolóide. Difícil caminho, eu sei...

Mas pios seria permanecer como estou, anulado e sufocado de remorso.

Quando virem um jovem alegre e ele lhe parecer um vencedor, orem por ele. Quem sabe se no meio da multidão inconsciente e inconsequente não caminha apenas mais um vencido!"

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ALCOÓLATRA
por: Joaquim Dias

Reunião da noite de 12 de janeiro de 1956.

Emocionadamente, o nosso grupo recebeu a visita de Joaquim Dias, pobre espírito sofredor que nos trouxe o doloroso relato de sua experiência, da qual recolhemos amplo material para estudo e meditação.


Alcoólatra!

Que outra palavra existirá na
Terra, encerrando consigo tantas potencialidades para o crime?

O alcoólatra não é somente o destruidor de si mesmo. É o perigoso instrumento das trevas, ponte viva para as forças arrasadoras da lama abismal.

O incêndio que provoca desolação aparece numa chispa.

O alcoolismo que carreia a miséria nasce num copinho.

De chispa em chispa, transforma-se o incêndio em chamas devoradoras.

De copinho a copinho, o vício alcança a delinqüência.

Hoje, farrapo de alma que foi homem, reconheço que, ontem, a minha tragédia começou assim...

Um aperitivo inocente...

Uma hora de recreio. . .

Uma noite festiva...

Era eu um homem feliz e trabalhador, vivendo em companhia de meus pais, de minha esposa e um filhinho.

Uma ocasião, porém, surgiu em que tive a infelicidade de sorver alguns goles do veneno terrível; disfarçado em bebida elegante, tentando afugentar pequeninos problemas da vida e, desde então, converti-me em zona pestilencial para os abutres da crueldade.

Velhos inimigos desencarnados de nossa equipe familiar fizeram de mim seu intérprete.

A breve tempo, abandonei o trabalho, fugi à higiene e apodreci meu caráter, trocando o lar venturoso pela taverna infeliz.

Bebendo por mim e por todas as entidades viciosas que nos hostilizavam a casa, falsifiquei documentos, matando meu pai com medicação indevida, depois de arrojá-lo à extrema ruína. .

Mais tarde, tornando-me bestial e inconsciente, espanquei minha mãe, impondo-lhe a enfermidade que a transportou para a sepultura.

Depois de algum tempo, constrangi minha esposa ao meretrício, para extorquir-lhe dinheiro, assassinando-a numa noite de horror e fazendo crer que a infeliz se envenenara usando as próprias mãos e, de meu filho, fiz um jovem salteador e beberrão, muito cedo eliminado pela polícia.

Réprobo social, colhia tão-somente as aversões que eu plantava.

Muitas vezes, em relâmpagos de lucidez, admoestava-me a consciência:

-Ainda é tempo! Recomeça! Recomeça!

Entretanto, fizera-me um homem vencido e cercado pelas sombras daqueles que, quanto eu, se haviam consagrado no corpo físico à criminalidade e à viciação, e essas sombras rodeavam-me apressadas, gritando-me, irresistíveis:

- Bebe e esquece! Bebe, Joaquim!

E eu me embriagava, sequioso de olvidar a mim mesmo, até que o delírio agudo me sitiou num catre de amargura e indigência.

A febre, a enfermidade e a loucura consumiram-me a carne, mas não percebi a visitação da morte, porque fui atraído, de roldão, para a turba de delinqüentes a que antes me afeiçoara.

Sofri-lhes a pressão, assimilei-lhes os desvarios e, com eles, procurei novamente embebedar-me.

A taverna era o meu mundo, com a demência irresponsável por meu modo de ser...

Ai de mim, contudo! Chegou o instante em que não mais pude engodar minha sede!...

A insatisfação arrasava-me por dentro, sem que meus lábios conseguissem tocar, de leve, numa gota do liquido tentador.

Deplorando a inexplicável inibição que me agravava os padecimentos, afastei-me dos companheiros para ocultar a desdita de que me via objeto.

Caminhei sem destino, angustiado e semi-louco, até que me vi prostrado num leito espinhoso de terra seca.

Sede implacável dominava-me totalmente.

Clamei por socorro em vão, invejando os vermes do subsolo.

Palavra alguma conseguiria relatar a aflição com que implorei do
Céu uma gota dágua que sustasse a alucinação de minhas células gustativas...

Meu suplicio ultrapassava toda humana expressão.

Não passava de uma fogueira circunscrita a mim mesmo.

Começaram, então, para mim, as miragens expiatórias.

Via-me em noite fresca e tranqüila, procurando o orvalho que caía do céu para dessedentar-me, enfim, mas, buscando as bagas do celeste elixir, elas não eram, aos meus olhos, senão lágrimas de minha mãe, cuja voz me atingia, pranteando em desconsolo:

- Não me batas, meu filho! Não me batas, meu filho!

Devolvido à flagelação, via-me sob a chuva renovadora, mas, tentando sorver-lhe o jorro, nele reconhecia o pranto de meu pai, cujas palavras derradeiras me impunham desalento e vergonha:

- Filho meu, por que me arruinaste assim? Arrojava-me ao chão, mergulhando meu ser na corrente poluída que o temporal engrossava sempre, na esperança de aliviar a sede terrível, mas, na própria lama do enxurro, encontrava somente as lágrimas de minha esposa, de mistura com, recriminações dolorosas, fustigando-me a consciência:

- Por que me atiraste ao lodo? e por que me mataste, bandido?

- De novo regressava ao deserto que me acolhia, para logo após me entregar à visão de fontes cristalinas...

- Enlouquecido de sede, colava a boca ao manancial, que se convertia em taça de fel candente, da qual transbordavam as lágrimas de meu filho, a bradar-me, em desespero:

- Meu pai, meu pai, que fizeste de mim?

Em toda parte, não surpreendia senão lágrimas... Arrastei-me pelos medonhos caminhos de minha peregrinação dolorosa, como um
Espírito amaldiçoado que o vício metamorfoseara em peçonhento réptil...

Suspirava por água que me aliviasse o tormento, mas só encontrava pranto...

Pranto de meu pai, de minha mãe, de minha esposa e de meu filho a perseguir-me implacável...

Alma acicatada por remorsos intraduzíveis, amarguei provações espantosas, até que mãos fraternas me trouxeram à bênção da oração...

Piedosos enfermeiros da Vida
Espiritual e mensageiros da Bondade Divina, pelos talentos da prece, aplacaram-me a sede, ofertando-me água pura...

Atenuou-se-me o estranho martírio, embora a consciência me acuse...

Ainda assim, amparado por aqueles que vos inspiram, ofereço-vos o triste exemplo de meu caso particular par escarmento daqueles que começam de copinho a copinho, no aperitivo inocente, na hora de recreio ou na noite festiva, descendo desprevenidos para o desequilíbrio e para a morte.

E, em vos falando, com o meu sofrimento transformado em palavras, rogo-vos a esmola dos pensamentos amigos para que eu regresse a mim mesmo, na escabrosa jornada da própria restauração.




Raul Seixas

Um roqueiro no além

Cap I - Um roqueiro no além - Na sepultura

Cap II - Um roqueiro no além - Fora da Sepultura

Cap III - Um roqueiro no além - No vale dos drogados I

Cap IV - Um roqueiro no além - No vale dos drogados II

Cap V - Um roqueiro no além - No vale dos drogados III

Cap VI - Um roqueiro no além - No vale dos drogados IV

Cap VII - Um roqueiro no além - Na colônia escola

Cap VIII - Um roqueiro no além - Novas Revelações

Cap IX - Um roqueiro no além - Novas Revelações 2

Cap X - Um roqueiro no além - Novas Revelações 3

Cap XI - Um roqueiro no além - O resgate da Mirna

Cap XII - Um roqueiro no além - O resgate da Mirna 2

Cap XIII – Um roqueiro no além - A missão

Raul Seixas - Um roqueiro no além (O mundo só é uma droga, para quem se droga no mundo)

Um roqueiro no além

Psicografado por Nelson Moraes

Pelo espírito Zílio


"É certo que os vivos nascem dos mortos e os mortos tornam a nascer"

Platão

1o Capítulo

Na sepultura

A minha morte foi como um pesadelo; senti um profundo torpor e perdi os sentidos. Depois de algum tempo, recobrei a consciência; parecia estar bem, até que percebi que algumas pessoas estavam colocando-me dentro de um caixão. Tentei reagiram mas não consegui mexer-me; gritei dizendo estar vivo, mas ninguém me ouviu. Quando fecharam o caixão, dei murros na tampa tentando abri-la, mas meu esforço era em vão; perdi os sentidos.

Não sei quanto tempo fiquei desacordado; quando dei por mim novamente, senti que me colocaram em um veiculo e viajamos por algum tempo. Os solavancos do carro enjoaram-me; comecei a passar mal; não tinha espaço para vomitar e nem para me mexer; sentia-me sufocado. Quando o carro parou escutei gritarem o meu nome seguido de muito pranto. Pelo movimento, percebi que ali deveria ser o local do velório. Tiraram o caixão do carro e, quando menos eu esperava, abriram a tampa. Senti um grande alívio! Tente levantar-me , mas não consegui. Muita gente debruçou sobre mim para chorar.

O que eu poderia fazer ?

Já havia tentado de tudo para sair dali. A única explicação que eu encontrava para aquele fato , é que eu estava realmente morto e o meu espírito preso a meu corpo e já começava a cheirar mal. Diante da minha impotência, tive que aceitar aquela situação. Observei cada pessoa que passavam por mim. Olhavam-me piedosamente e lamentavam pela minha morte. Quase todos que passaram por aquele desfile de lágrimas e de hipocrisia diziam a mesma coisa:

- Que pena. Tão jovem!

Outros cochichavam:

- Foram as drogas que os destruíram.

-Depois de alguém tempo, fecharam o caixão e puseram-me novamente em um carro; Fiquei tonto, comecei a passar mal; por alguns momentos, eu ia morrer de verdade. Mas acabei apenas desmaiando. Quando voltei a mim, não sei quanto tempo depois, escutei algumas pessoas conversando. Pelo que elas falavam, deduzi que estavam levando-me para o cemitério; quase me desesperei. Senti um medo terrível, principalmente quando percebi que estavam SEPULTANDO-ME. Não cheguei a entrar em pânico, mas rezei todas as orações que eu havia aprendido e isso, de certa forma, acalmou.

Lembrei-me da minha vida desde quando era criança. Revi todo meu passado, era como se eu estivesse assistindo à projeção. A partir dai, naquela solidão profunda, comecei a julgar minhas atitudes. Fui um combatente! Lutei contra um sistema que eu não aceitava e que me causava revolta. Entretanto, acabei vítima de mim mesmo e não do sistema que eu condenava.

Sem perceber, havia optado pela fuga, a mesma fuga que me havia fascinado em outros momentos da minha vida. O sofrimento por que eu estava passando era característico dos suicidas. Era assim mesmo que eu me sentia, um suicida. Levado pela revolta, percorri o caminho das drogas até encontrar a morte. Embora o mundo me aborrecesse, eu deveria Ter continuado no bom combate.

Na verdade, fui um equivocado, apontei tudo que eu achava que estava errado, mas não soube indicar o certo. Minhas intenções eram boas, mas minhas atitudes eram contraditórias. Em vez de atacar e ferir o sistema, eu deveria Ter contribuído para transformá-lo. Não corri atrás do ouro dos tolos, mas, na cama de meu apartamento, fiquei com a boca aberta esperando a morte chegar. Ela chegou antecipada! Veio convidada pela minha insensatez. Em vez de repousar em seus braços, ela agora fazia arder minha consciência. No auge da minha angustia, eu questionava:

-Quanto tempo terei que ficar nesta situação ? Ficarei aqui até o dia do trem passar ? Será que vou ? ou será que fico ?

Eu consolava a mim mesmo:

-Não importa! Se vou, livro-me deste mundo equivocado. Se fico, tento outra vez.

Diante das dúvidas que povoaram minha mente, eu afirmava:

-Tenho certeza de que a vida é eterna! Este é apenas um momento como outro qualquer. Vai passar , como tudo passou.

Essas auto-afirmações confortavam-me. Constantemente, eu buscava encontrar as vantagens que aquela situação me proporcionava. Então, eu dizia:

-Pelo menos aqui não ouço os noticiários infames! Não posso beber nem me drogar.

Naquele momento, eu percebi que havia esquecido o vício! Sentia-me de certa forma reconfortado, pelo menos aquela situação proporcionava-me um bem verdadeiro. O tempo foi passando...

Vez ou outra, alguém vinha depositar flores sobre meu túmulo; elas pareciam ajudar-me; Eu sentia o perfume delas amenizando o cheiro dos ossos que restaram no meu corpo. Lembrei-me de que um dia eu e um amigo tentamos nos comunicar com as plantas. Talvez, pela importância que demos a elas naquele dia, agora vinham retribuir-me, socorrendo-me com delicioso perfume.

Eu escutava tudo o que se passava no cemitério. Ouvi muitos gritos de desespero. Muitas vezes adormeci, mas os pesadelos faziam-me acordar assustado. Sonhei várias vezes que estava junto à família. Desesperado, tentava falar que estava vivo, mas ninguém me ouvia.

Entre sonhos e pesadelos, continuei preso àquele ataúde que se transformara em minha casa. Eu perguntava a mim mesmo:

-Seria esta a minha derradeira morada: Jamais sairia daqui.

Logo em seguida, respondia-me a mim mesmo cheio de convicção:

-Não. Tenho certeza de que não! Eu não acredito nas penas eternas. Logo estarei fora daqui.

Não sei se era intuição , mas eu tinha realmente a certeza de que, em determinado momento, eu sairia dali. Tentei levantar-me algumas vezes, mas ainda estava preso àquela situação.

2o Capítulo

Fora da Sepultura

Não sabia se havia passado alguns dias, alguns meses ou alguns anos. Perdi completamente a noção do tempo, até que ouvi uma voz chamando-me:

-Olá, malandro! Foi bem de viagem ?

Sabia que era comigo que falavam, mas não respondi. A voz continuou chamando-me e rindo às gargalhadas. Lembrava-me a voz de alguém conhecido, mas a escuridão era tanta que eu não podia vê-lo.

-O que é malandro, vai ficar a vida toda dentro desse buraco? Seu corpo já apodreceu! Vai esperar apodrecer o seu espírito? Você está vivo, cara! A morte não existe! Olha para mim! Estou numa "boa.". Aqui tem tudo o que a gente gosta. Vamos. Sai desse buraco.

Uma força estranha impeliu-me e eu sai dali. Demorou muito para que eu pudesse recobrar a visão. Alguém me estendeu a mão e segurou-me pelo braço...

Era um homem cuja fisionomia chegava a assustar-me; tentei lembrar-me de onde eu o conhecia mas não consegui.

-Está assustado, "garotão"? Não tenha medo, eu domino esta região! Você é meu convidado especial. Eu sou seu fã!

-Quem é você ?

-Somos velhos amigos, não vai se lembrar, fazem apenas alguns séculos...

Suas gargalhadas assustavam-me. ele continuou:

-Você deve Ter pensado que o inferno não existe, mas o inferno existe somente para os fracos; estamos no Paraíso. Eu governo esta parte da cidade. Você vai adorar ficar aqui comigo e com todos os que estão sob o meu comando. Venha! Vou ensinar a você como se vive fora do corpo.

Constrangido e assustado, segui seus passos até sairmos do cemitério. Na rua, entrei em pânico. Sai correndo sem saber para onde; vaguei não sei quanto tempo; estava aflito; minhas roupas estavam cheias de vermes, quanto mais eu sacudia mais caíam no chão. Desesperado entrei em um motel. Precisava tomar um banho! Fui até a recepção, falei com a mulher que atendia na portaria, mas ela não me ouviu; ia insistir novamente quando aproximou-se de mim uma outra mulher:

-Olá, querido! Não adianta falar com ela, não pode vê-lo, você é um espírito desencarnado como eu. Em que posso ser útil ?

-Preciso tomar um banho.

-Só um banho, amor ?

-Sim. Tenho que me livrar destes vermes.

-Que vermes?

-Você não os vê ? Olha aqui! Estão no meu corpo todo, já estou ficando desesperado!

-Você não é o primeiro louco que vem aqui com essa história. Isso é o que dá eu trabalhar perto do cemitério. Vamos até a minha suíte que eu o faço esquecer os vermes. Vem meu bem, vem!

-Eu quero apenas tomar um banho.

-Está bem! Eu o levo para tomar um banho. Venha.

Caminhamos em direção à tal suíte, passamos por algumas em que, do lado de fora, alguns homens e mulheres se acotovelavam; pareciam estar enxergando através da janela fechada e da parede; achei estranho. Antes de eu perguntar, a mulher começou a falar:

-Você deve estar chegando agora; não sabe nada dessas coisas. Esses espíritos são os sexólatras; estão participando do conluio amoroso do casal que está na suíte. Se gostarem do desempenho do homem ou da mulher, irão com eles para casa.

Os gestos que eles faziam eram de verdadeiros alucinados; fiquei apavorado e sai correndo. A mulher ficou gritando:

-Onde você vai, meu bem ? Vem cá!

Não olhei para trás; segui em frente, sem rumo e sem destino; caminhei pelas calçadas; vaguei por muito tempo. Notei que algumas pessoas que passavam por mim pareciam me ver, outras não, então entendi que as que me viam eram espíritos como eu, as outras eram pessoas encarnadas. Fiquei admirado de ver um número tão grande de espíritos caminhando entre os encarnados. Muitos pareciam saber para onde iam, outros vagavam como eu. Estava meditando sobre a minha situação, quando ouvi uma música que me era familiar; o som vinha de um automóvel estacionado; aproximei-me...

Era um casal de jovens enamorados. Ela tinha pouco mais de dezesseis anos, ele, uns dezenove ou mais; ouvi o diálogo:

-Eu adoro ouvir esse cara cantar!

Exclamou a jovem.

Ele era demais, pena que morreu, era um dos nossos! vamos homenageá-lo ?

Vamos! – Respondeu a jovem.

O rapaz abriu um papelote de cocaína e os dois começaram a "cheirar".

-Esta é pra você malucão!

Diante daquela cena, desequilibrei-me. Entrei em crise e comecei a passar mal. Vomitei não sei por quanto tempo; continuei caminhando; cambaleava de um lado pra outro. Eu queria morrer de verdade! Tudo o que eu fiz na vida havia se tornado uma grande loucura. Sentei-me na soleira de uma porta e comecei a chorar; alguns espíritos que passavam por ali vieram ao meu encontro.

-Não chore companheiro, nós vamos ajudá-lo; venha conosco.

- Nós vamos levar você até um lugar muito bom que vai atender às suas necessidades.

Estava desesperado; deixei-me levar. Fomos parar em um lugar estranho.

-É aqui que deve ficar. Seja bonzinho e terá tudo o que você precisa.

Largaram-me ali e foram embora rindo em gargalhadas. Senti muito medo. Nomeio das sombras que predominavam naquele lugar, comecei a ver homens e mulheres desnudos, caminhando abraçados uns aos outros como se estivessem num gozo interminável. Alguns tinham apenas um buraco no lugar das narinas. As veias dos braços de alguns estavam tão inflamadas que pareciam expostas. Eu sentia muitas dores nos pés; lembrei-me que as últimas vezes em que me droguei, eram neles que eu aplicava a droga. Olhei para eles e percebi que estavam realmente inchados e as veias sobressaltadas.

Aquele lugar dava-me nojo, o cheiro era insuportável; vez ou outra, ecoavam gritos e gargalhadas estridentes. Desejei, naquele momento, voltar para a minha sepultura. Se existisse realmente o inferno, com certeza era ali. Pense em Deus e comecei a chorar...

Estava arrependido pelo que havia feito em minha vida; cai de joelhos e não mais consegui levantar. Comecei a vomitar novamente. Eu me arrastava pelo chão cheio de limo. Da umidade do solo, surgiam larvas e centopéias que passeavam pelo meu corpo. Senti dores horríveis e acabei desmaiando.

3o Capítulo

No vale dos drogados

Não sei quanto tempo fiquei desacordado. Quando voltei à consciência, alguns espíritos que ali estavam se aproximaram de mim e agarraram-me pelos braços; um deles, segurando uma agulha hipodérmica. com a agulha torta e enferrujada, começou a falar:

-Calma! Nós guardamos um pouquinho pra você.

Quando ele ia aplicar a droga em meu braço, tentei reagir, mas estava impotente.

Gritei desesperado:

-Deus, meu Pai, perdoa-me, livra-me deste inferno, eu lhe suplico. Socorra-me por favor...

Uma Luz surgiu no meio das sombras! Vi um jovem como que saindo daquela luz intensa. Levantou o braço e, no mesmo momento, os espíritos que tentavam ferir-me, largaram-me e se afastaram. O susto devolveu-me a lucidez; olhei para o jovem que, sorrindo para mim, afirmou:

-Não tema. Venha, eu vou levar você para um lugar onde poderá recuperar-se em segurança. Venha! Dê-me sua mão.

Apoiado por ele, levantei-me e começamos a caminhar. eu estava cansado; mal conseguia andar. Está com medo. Para onde eu iria desta vez? Subimos e descemos por entre as pedras e rochedos até que chegamos a um lugar parecido com aquele, porém, menos sombrio.

-Quem é você? -Perguntei.

-Sou um amigo. O vale onde estava é para aqueles que ainda estão presos ao vício. Enquanto não demonstrarem vontade de se libertarem, continuarão lã. Aqui você compartilhará da companhia de espíritos que já estão em trabalho de recuperação. Ficará neste lugar até que elimine os venenos que acumulou no seu corpo espiritual.

-Que devo fazer para eliminar tais venenos?

-O tempo e a natureza se encarregarão disso.

-Foi naquele lugar e naquele momento que começou o meu caminho de volta, árduo e penoso. Passei longo tempo me arrastando e vomitando entre aqueles infelizes como eu. Ali , arranquei das entranhas o resultado da minha ignomínia e insensatez. Nos momentos de crises mais profundas e dolorosas, eu lembrava da minha estupidez. Meu peito parecia arrebentar de remorso. Sofri muito. Não bastasse meu sofrimento, constantemente era tentado; escutava de vez em quando a voz daquele homem que me tirou da sepultura, ecoando na minha consciência:

-Você decepcionou-me. Pensei que era um forte, agora vejo que é um fraco. Preferiu o inferno ao invés de Paraíso. Reaja malandro, não se entregue, não sabe o que está perdendo. É só chamar que eu vou buscar você.

Aquela voz soava como um desafio, cheguei a pensar que era realmente um fraco. Mas o que ele poderia oferecer-me? Orgias, drogas, liberdade? Que liberdade? Meu Deus, eu que acreditei que a felicidade era Ter liberdade para fazer tudo o que eu queria, agora estava ali, vítima dessa pseudo-liberdade. Não vou ceder! Meu lugar é aqui, junto aos meus merecidos tormentos.

A partir daí, assumi de vez o meu calvário. O tempo foi passando...

Aos poucos fui reequilibrando-me até conseguir ficar definitivamente em pé. Mais consciente, comecei a observar de perto os espíritos que estava ali. A maioria, apesar das marcas dos efeitos das drogas, tinha a aparência juvenil. Uma jovem, com ar de timidez aproximou-se de mim e disse-me:

-Meu nome é Rosa. Sou sua fã. Eu adorava "curtir" os seus shows.

-Obrigado! Faz muito tempo que está aqui? - perguntei.

-Não sei. Aqui a gente perde a noção do tempo. Parece que faz um século que estou aqui.

-De que você morreu?

-De uma " Over-dose."

-Porque se drogava?

-Revolta!

-Contra o que se revoltava?

-Eu vivia revoltada com tudo e com todos. Meus pais deram-me tudo o que eu precisava. Eles não tinham tempo para mim. Eu vivia triste, até que conheci uns "amigos" roqueiros que me ajudaram a Ter um pouco de "alegria"; foi quando eu me tornei sua fã.

-Como você se envolveu com as drogas?

Estava feliz! Eu curtia meus novos "amigos". Eram alegres, eu me divertia muito, até que apareceram as drogas. Estávamos acampados; insistiram tanto que eu acabei experimentando. A partir daí, minha vida tornou-se um pesadelo.

Atraído pela nossa conversa aproximou-se de nós um grupo de mais de uma dezena de jovens. Um deles, parecendo liderar o grupo, tomou Rosa nos braços e disse-me:

-Meu nome é Ronaldo. Não se preocupe, logo ela estará bem! Seja bem-vindo ao grupo de conscientes!

4o Capítulo

No Vale dos Drogados 2

-Obrigado! O que é o grupo dos conscientes?

-Somos os que já caminham em pé e lúcidos, pois como você vê, ainda há muitos que se arrastam, assim como você e nós nos arrastávamos até pouco tempo.

-Vocês sabem como funciona este lugar?

Existe um tempo certo que devemos fica aqui?

-Nós não sabemos.

Respondeu Ronaldo.

-Vocês já viram alguém sair daqui?

-Eu já vi!

Afirmou Rosa que se recuperava do pranto. Então eu perguntei-lhe:

-Como se faz para sair daqui? É possível? Ou temos que esperar alguém vir nos buscar?

-Eu conversei com um espírito que veio junto com um grupo chamado Samaritanos. Ele informou-me que somos livres, podemos sair, basta subirmos pela encosta do vale e logo estaremos entre os encarnados, mas disse não é aconselhável, pois estaríamos comprometendo nossa recuperação. Disse, ainda, que o mais importante para nós, é ficarmos até que se atinja a completa desintoxicação causada pelas drogas. Além do mais, devemos nos reabilitar das conseqüências da morte prematura. Nesse dia, eles levaram muitos espíritos que já estavam prontos para iniciarem uma nova fase do tratamento.

-Então, pelo que vejo, só nos resta esperar pela nossa vez! – afirmei conformado.

Rosa continuou falando:

-Segundo esse espírito que me orientou, não devemos esperar de braços abertos cruzados. podemos acelerar nossa recuperação ajudando aqueles que estão em pior situação do que nós.

-E o que podemos fazer?

-Disse-me que devemos conversar com eles, falar-lhe de forma a estimular a auto-confiança, renovando-lhe a esperança.

Ronaldo sentou-se e convidou a todos para sentarmos. Sentamos...

Depois de um mútuo entendimento definimos um plano de trabalho: fomos divididos em cinco grupos de três. Rosa, Miriam – a mais velha – e eu ficamos no mesmo grupo.

-Quando começamos? - Perguntei.

Ronaldo respondeu:

- Eu acho que devemos começar já.

Todos concordaram! Imediatamente, saímos a campo. Rosa, Miriam e eu aproximamo-nos de um jovem que se retorcia envolto em uma substância gelatinosa que saía da sua boca e ouvidos, envolvendo quase todo seu corpo. Na cabeça, tinha um ferimento que denunciava as marcas de um acidente. Rosa sentou-se junto a ele, sem qualquer asco; puxou sua cabeça para seu colo e começou a orar e a passar a mão nos seus cabelos. Ele balbuciou:

-Socorro...Socorro...

Meio Tímido, falei:

- Calma amigo, estamos aqui para lhe ajudar, pense em Deus, confia que você vai sair dessa.

Ficamos ali até passar aquela crise que eu mesmo havia experimentado. Depois de algum tempo, perguntou:

- Quem são vocês?

-Somos amigos; estamos juntos nesse barco e, com certeza, não vamos naufragar.

-Afirmou Rosa.

- Não consigo levantar-me; sinto-me pesado. Não posso mover-me.

- Qualquer dia desses você vai conseguir, tenha fé. – afirmei.

-O que aconteceu comigo? Onde está o carro?

Rosa olhou para mim, olhou para Miriam e sussurrou para nós:

-E agora? O que falamos?

Miriam levantou a mão espalmada como quem diz "deixa para mim". Logo em seguida, falou:

-Como é seu nome?

-Tiago.

-Tiago. Você sofreu um acidente?

-Meu amigo bateu o carro mas não foi aqui. Como eu vim parar neste lugar?

-No acidente você morreu. Por isso está aqui.

-Você está louca. Estão. Estão brincando comigo, ou então isto aqui é um pesadelo. Vocês não existem.

-Isto não é um sonho e nem um pesadelo. É a mais pura realidade. Você morreu! Quanto mais tempo levar para reconhecer , mais tempo estará em sofrimento; fique calmo.

-Onde está o meu amigo? Para onde o levaram?

-O seu amigo deve Ter sobrevivido ao acidente, por isso não veio para cá.

- Eu quero ir para casa. Chame alguém da minha família, por favor.

- O seu amigo deve ter sobrevivido ao acidente por isso não veio para cá.

- Eu quero ir para casa. Chame alguém da minha família, por favor.

- Tiago, quando vocês sofreram o acidente , estavam drogados?

5o Capítulo

No vale dos drogados III

- Eu falei para o meu amigo que o racha não ia dar certo, nós tínhamos acabado de nos drogar, ele não estava bem mas uns caras insistiram desafiando meu amigo, ele não agüentou e partiu para cima. Depois eu não vi mais nada, até a hora que vocês chegaram.

- Agora procure ficar calmo, outra hora nós voltamos a conversar. Se você acredita em Deus, reze, lhe fará bem.

Dali partimos na direção de outros enfermos. Não tínhamos a noção de tempo, não havia dia ou noite, o lugar era sempre sombrio. Observei que quase todos me conheciam, isto me fazia sentir co-responsável pela situação em que estavam. Eu que acreditava ser um filósofo e sonhava construir a cidade das estrelas, estava agora em plena cidade das sombras. E o pior, de alguma forma eu acabei ajudando a povoá-la, arrastando para cá muitos desses espíritos que se influenciaram com o mau exemplo do meu comportamento equivocado.

Muitos dos espíritos estavam naquele imenso vale de sofrimento apresentavam problemas quase idênticos. A maior dificuldade de todos era aceitar e compreender a morte. Eram todos suicidas involuntários, vítimas das drogas como eu.

Não demorou para que o nosso trabalho fosse notado pelos espíritos Samaritanos. Logo depois que o iniciamos, recebíamos constantemente orientação e recursos valiosos que facilitavam nosso trabalho.

Todos os dias, Felipe, o mesmo que socorreu-me no outro vale, e alguns Samaritanos, vinham nos ministrar aulas. Com eles aprendemos a lidar com as dificuldades que muitas vezes encontramos ao atender os espíritos em sofrimento. Principalmente aqueles que ainda se encontravam dominados por mentes doentias que os subjugavam mesmo à distância; da mesma forma como aquele espírito tentou controlar-me.

Sofri muito, entrei várias vezes em depressão. Várias vezes Felipe teve que me conduzir até a Terra e apelar para os recursos dos trabalhadores encarnados, afim de que eu não sucumbisse. Participei muitas vezes das reuniões de auxilio realizadas pelos encarnados. Minhas feridas foram tratadas por eles. Segundo Felipe, o material colhido entre os trabalhadores encarnados era excelente para contribuir com uma recuperação mais rápida do nosso corpo espiritual. Nessas oportunidades, apoiado por Felipe, aproveitava para visitar meus entes queridos. Eram apenas alguns segundos, quase sempre á noite, quando já estavam dormindo. Mesmo assim, ajudou-me a amenizar a saudade que eu sentia.

Depois de recuperado, trabalhei por muito tempo naquele vale de lágrimas. Foi o que me ajudou a reconhecer as minhas fraquezas. Estava ansioso para recompor minha vida. Nem sequer sabia quanto tempo se passara da minha morte; esperei o retorno de Felipe para perguntar-lhe. Não demorou muito e ele veio ver-me.

-Como está, meu amigo? Muito trabalho?

-Trabalho é o que não falta por aqui. Todos os dias chega uma leva de espíritos em sofrimento. Todos trazem as mesmas características. Por quê?

-Como você já percebeu, este vale abriga os espíritos que na terra se entregaram ao vício das drogas. Na aparente promiscuidade em que vivem aqui, expondo uns aos outros os efeitos que as drogas provocaram em seus espíritos, é estabelecido um processo homeopático de cura, ou seja, semelhante contribuindo na cura do semelhante. Devo concordar que realmente funciona! Quando eu cheguei aqui, não imaginava os efeitos que as drogas poderiam causar no corpo espiritual.

-Toda vez que nós ultrapassamos a barreira do bom senso e agredimos a natureza em nós , ou fora de nós, ela nos responde à altura da nossa agressão. Como a natureza física e a natureza etérica estão estreitamente ligadas, acabamos transferindo para a nossa natureza extra-física o resultado das nossas ações menos felizes.

6o Capítulo

No vale dos drogados IV

-Toda vez que nós ultrapassamos a barreira do bom senso e agredimos a natureza em nós , ou fora de nós, ela nos responde à altura da nossa agressão. Como a natureza física e a natureza etérica estão estreitamente ligadas, acabamos transferindo para a nossa natureza extra-física o resultado das nossas ações menos felizes.

-Por que uns se recuperam mais rápido do que outros?

-O tratamento que se opera aqui não é um tratamento biológico, ele não se efetiva apenas na recuperação de células, é a recuperação da mente que importa. Quanto mais tempo o espírito se demora para se conscientizar do erro que praticou, mais demorada será a sua recuperação.

-Por que depois da morte física não continuei atraído pelas drogas? Pelo contrário, senti repugnância?

-Embora não se lembre você tem valorosos amigos no mundo espiritual. Antes mesmo de você desencarnar, durante período em que estava enfermo, eles o ajudaram muito; anulando certos efeitos do seu perispírito, causados pelos abusos, os quais poderiam agravar ainda mais a sua situação.

-Eu não me drogava por prazer, eu buscava respostas à minha indignação. Nas "viagens" que eu realizava conseguia enxergar o mundo que desejava. Mas agora compreendo, o mundo que todos desejamos, não está pronto esperando por nós; temos que construí-lo onde estivermos.

-Zílio, para muitos, a equipe de vocês ajudou a construir um mundo melhor aqui mesmo neste vale de sofrimento. O mundo melhor começa a existir quando começamos a pensar nele e a lutar por ele.

-Felipe, você sabe alguma coisa sobre o meu passado?

-Não posso lhe adiantar nada por enquanto. Breve eu virei buscá-lo e vou levá-lo a um lugar onde reencontrará velhos amigos; estes sim poderão ajudá-lo a retomar os caminhos da evolução, prestando-lhes as informações necessárias e úteis.

-Quanto tempo se passou desde a minha morte?

-Sete anos, mais ou menos. Um pouco menos de um ano ficou preso ao corpo, mais de seis já faz que está aqui. Esse tempo seria muito maior se você não tivesse acumulado alguns méritos no passado.

-Eu julgava Ter sido há uns três ou quatro anos.

-Conforme o plano mental em que estamos situados, a dinâmica do tempo se altera. O que para uns parece um século, para outros representa apenas alguns momentos.

-Várias vezes, estive inclinado a subir a encosta para visitar a Terra. Se eu tivesse ido, qual o problema que me acarretaria?

-É imprevisível. Dependeria muito das suas reações diante do que iria encontrar.

-O que me aconselha?

-Eu aconselho que deve esperar até que esteja reunido aos seus amigos que o aguardam; com certeza saberão orientá-lo sobre o que deve ou não fazer.

-Quando pretende levar-me até eles?

-Não tarda. Continue trabalhando. quanto menos esperar estarei aqui para conduzi-lo até eles.

0 diálogo com Felipe me fez bem. Aumentou minhas esperanças. Continuei meu trabalho auxiliado por rosa e Miriam, que se revelaram criaturas maravilhosas. Sabiam dar amor e compreensão para os companheiros de infortúnio. Em momento nenhum perderam a calma. Com certeza, em breve estariam em um plano melhor.

Tiago, o primeiro jovem que atendemos, já caminhava pelo vale. Havia entrado para o mundo dos conscientes, como dizia Ronaldo. Apesar de estarmos rodeados pelo sofrimento, o clima fraterno que existia em torno do trabalho que desenvolvíamos dava-nos um grande alento.

Os espíritos que ali estavam eram oriundos de todas as classes sociais, mas a grande maioria era constituída de jovens que viviam no seio da classe média alta. Quase todos registravam uma grande carência afetiva; eram órfãos de pais vivos. Tiveram tudo e ao mesmo tempo não tiveram nada. Alguns deles estavam cursando faculdades quando tiveram a vida física interrompida. Por estranha ironia, na academia onde deveriam adquirir conhecimentos para projetarem o futuro, conheceram as drogas e se projetaram para a morte.

Em momento algum encontramos violência naqueles corações em sofrimento; a maioria era dócil à nossa orientação. Muitos se recuperavam rapidamente. O que mais se ouvia naquele vale eram os gritos de arrependimento e de saudade dos entes queridos. Apenas alguns ameaçavam entrar pelos caminhos da revolta, mas logo se acalmavam.

Aquele era um verdadeiro vale de redenção! Ali não entravam traficantes ou marginais; era destinado a espíritos que já demonstravam uma tendência à recuperação. Assisti a partida de muitos que já estavam há mais tempo; saíram dali com o corações cheios de esperanças. A despedida era sempre um momento emocionante. A emoção ainda era maior quando partiam alguns daqueles aos quais dedicamos nossa atenção e contribuímos para que alcançassem a recuperação necessária para enfrentar uma nova jornada. Fora a saudade da terra, sentia-me feliz , ali. Afinal, estava sendo útil ao meu semelhante.

7o Capítulo

Na colônia escola

-Não sei quanto tempo se passou. Felipe veio buscar-me. Emocionado, despedi-me de todos. Miriam e Rosa abraçaram-me numa sincera demonstração de carinho.

Partimos... Felipe segurou-me pela mão. Subimos pela encosta do vale até uma planície onde um veículo nos esperava. Entramos. Logo em seguida, o veículo começou a deslizar sou voar, não sei ao certo, o que sei realmente é que chegamos a um lugar que parecia uma cidade. Havia prédios, jardins, pessoas andando pelas ruas e alamedas. Desembarcamos e começamos a caminhar. As pessoas passavam por nós, cumprimentavam-nos como se nos conhecessem. Curioso, perguntei:

-Estamos na Terra?

-Não da forma como você imagina. estamos em uma cidade espiritual, em um lugar próximo da crosta terrestre. Na verdade, ela toda é uma colônia escola.

-Não entendi! Uma Colônia Escola?

-Sim! O que aqui se aprende transcende ao que aprendemos nas academias da Terra.

Entramos em um prédio de dois andares. Caminhamos pelo corredor térreo e paramos frente ao número dezesseis.

-Este é o apartamento onde vai ficar. – afirmou Felipe.

Era um quarto com uma cama, uma estante cheia de livros e uma sala pequena com um sofá e duas poltronas, iguais as que todos conhecemos na Terra. Ia perguntar do banheiro do banheiro, mas calei-me, afinal agora era um espírito, com certeza não precisava mais atender às necessidades fisiológicas. Felipe, dando a entender que leu os meus pensamentos, sorriu, balançou a cabeça e partiu.

Fui para o quarto e abri a janela. estava anoitecendo, contemplei o céu. A beleza era tanta que tive a sensação de estar no portal da eternidade. Tomado por forte emoção, senti-me voltando no tempo, o lugar onde fui parar...Era ali mesmo! Estava rodeado de amigos, era uma festa de despedida, eu ia partir, ia retornar à Terra. Alguém que eu senti que amava muito aproximou-se de mim e disse:

-Vá, tenha fé! Propague a sabedoria Divina! Não deixe a indisciplina vencê-lo, lute com todas as suas forças.

Meu Deus, foi daqui que eu parti para a Terra. Tentei lembrar-me de mais alguma coisa mas não consegui. Fechei a janela e deitei-me para raciocinar melhor. Comecei a conjecturar:

-Talvez seja por isso que Felipe me trouxe para cá. Quem sabe é aqui que eu tenho que prestar contas dos compromissos assumidos antes de reencarnar?

Depois de muitas conjecturações, resolvi distrair-me lendo um livro. Levantei e peguei um deles na estante. Quando eu vi a capa e o título, estremeci, tive a sensação de que já havia passado por aquele momento. Não agüentei a curiosidade; deitei-me novamente e, recostado na cabeceira da cama, comecei a lê-lo. Era incrível! A cada página eu reconhecia aquela obra. O livro tratava de uma técnica de se introduzir a Filosofia na Arte.

Agora tinha a certeza de que já estivera ali, naquele mesmo quarto. Estava divagando quando a porta se abriu e entrou uma mulher aparentando uns trinta anos, vestindo um longo vestido azul claro. Quando eu a vi e olhei em seus olhos esverdeados e brilhantes, senti uma emoção tão grande que comecei a chorar. Ela correu para mim e apertou-me em seus braços. Por alguns instantes tornamo-nos um só. Essa foi a impressão que eu tive naquele momento. Desejei que ficássemos assim para sempre.

-Zílio, meu irmão! Fiz de tudo para que não enveredasse pelos caminhos da revolta, mas, pelo que eu vejo, ainda é um sentimento muito forte em você.

Quando ela chamou-me de Zílio, senti aflorar em minha mente vagas recordações. A emoção de tais lembranças embargava-me a voz. Com muito esforço consegui falar o nome que surgiu na minha mente:

- Helena! Helena! Era você o anjo bom que eu procurava nas minhas alucinações.

-Zílio, graças a Deus você voltou à consciência!

-Sinto que fracassei novamente.

-Não se deixe abater, afinal, você conseguiu pelo menos se desvincular de alguns espíritos que o alienaram durante séculos a compromissos inferiores.

- Espero que você esteja certa; esta etapa da minha existência foi muito tumultuada; não sei onde venci ou fracassei.

- Por mais tumultuadas que sejam nossas experiências na Terra, sempre trazemos algum aproveitamento; muitas vezes, apenas uma atitude feliz que praticamos passa a nos render frutos eternamente. Ao longo das suas encarnações, você acumulou muitas atitudes felizes e foram elas que lhe facultaram retornar a este lugar tão importante para a sua evolução. Breve nos reuniremos com nossos amigos. Agora devo ir. Descanse, amanhã nos veremos novamente.

Realmente eu precisava descansar, sentia-me bem, mas havia desprendido muita energia ao viver tantas emoções em tão pouco tempo. Deixe-me e adormeci.

8o Capítulo

NOVAS REVELAÇÕES

No dia seguinte quando acordei, fui surpreendido pela luz do sol penetrando pelas frestas da janela. Senti uma alegria imensa, pois há muito eu não via os raios solares. Felipe estava sentado aos pés da minha cama.

-Como está, meu amigo Zílio?

-Transbordando de felicidade! É como se eu tivesse renascido esta manhã.

-Pelo que eu vejo, não teve dificuldades para retornar algumas lembranças dos momentos vividos aqui entre nós.

-Não me recordei de tudo, mas o que é importante para mim, está bem nítido em minha mente. Sei agora que você é um dos amigos valorosos que eu tenho aqui. Deve ter saído daqui muito bem preparado; por que fracassei?

-Enquanto estamos aqui no mundo espiritual, geralmente estamos entre autênticos amigos; nossas qualidades pouco são testadas, porém, quando reencarnamos, nós nos submetemos a uma convivência irrestrita, onde nossos valores são testados a cada instante a as nossas fraquezas são estimuladas até o último grau da nossa resistência. Nem sempre conseguimos resistir a todas e isso demonstra o quanto ainda temos que caminhar rumo à perfeição.

-Estou sentindo uma sensação de eternidade; é como se realmente eu tivesse nascido há milhares de anos atrás.

-É Zílio, somos alguns dos muitos que ainda não conseguiram voltar ao planeta de onde fomos exilados. Graças a Deus, não recordamos totalmente dos detalhes do nosso sofrimento seria ainda maior. Vez ou outra, temos uma vaga intuição e isso já é o bastante para nos sentirmos deslocados neste mundo. Devemos prosseguir lutando! Agora, este é o nosso mundo! Temos que ajudar a transformá-lo.

-Você, Felipe, deve estar séculos à minha frente, não sei se mereço gozar da sua presença.

-Zílio, meu irmão, muitas vezes estivermos juntos, vivendo experiências difíceis no corpo físico. Nosso grande erro foi cometido na velha Lemúria, quando nos associamos a um grupo de exilados como nós, que praticava rituais macabros. Com o poder que desenvolveu, esse grupo provocava a materialização de espíritos inferiores, que vinham sugar o fluido vital das vítimas humanas sacrificadas em nossos rituais. Em troca, esses espíritos menos desenvolvidos obedeciam cegamente a nossa vontade. Esses rituais eram regados a drogas produzidas por verdadeiros alquimistas das trevas. O mal que causamos a milhares de criaturas nos custou séculos de sofrimentos e reparação.

-Então, é por isso que, quando usava as drogas, eu me sentia como se estivesse realizando algo místico, era como se estivesse me preparando para sondar o infinito.

-É, Zílio, essas fraquezas nos acompanharam durante muitas vidas. Alguns companheiros ainda se comprazem com elas, um deles você encontrou quando conseguiu sair da sepultura. Graças a Deus, a sua reação diante dele foi positiva; com isso, libertou-se da sua influência nociva que o levou a sucumbir no mundo das drogas. Agora você está livre para construir o futuro que deseja.

-Foi por isso que eu tive a sensação de conhecê-lo?

-Não tenha dúvidas. Ele tinha a esperança de continuar lhe subjugando aqui no mundo espiritual.

-Realmente, ele tentou. Ouvi muitas vezes sua voz convidando-me a participar do "Paraíso" em que ele vive.

-Um dia vamos poder ajudá-lo. Afinal, é nosso irmão, não podemos julgá-lo, pois cometemos os mesmo equívocos.

-Helena faz parte do nosso grupo?

-Helena foi uma das primeiras que se redimiu dos crimes que cometemos na Lemúria; depois disso, tornou-se uma benfeitora de todos nós.

-Qual tem sido minha participação nesta Colônia?

-Aqui todos somos alunos e professores. Estudamos e desenvolvemos meios de contribuirmos com a transformação da humanidade, inserindo, na Arte, mensagens de fé e renovação. Entretanto, temos experimentado inúmeros fracassos. Muitos desceram à Terra com essa missão, mas, quando alcançaram a fama esqueceram os compromissos assumidos. Temos alguns deles que ainda estão encarnados, desfrutando de valiosos recursos de comunicação, mas infelizmente, por mais que tentemos influenciá-los acabam servindo ao consumismo predominante na Terra.

-Eu servi ao consumismo, mas acabei induzindo muitos a consumirem um produto cujo efeito é a morte. Reconheço que sou um dos que fracassaram.

9o Capítulo

Novas Revelações 2

-Apesar desse fator negativo, você foi um dos poucos que conseguiram marcar alguns pontos positivos com relação a nossa proposta de trabalho.

-Vocês estão à frente dessa tarefa tão importante, não poderiam interferir quando aqueles que partiram daqui com essa missão estivessem ameaçados com o fracasso?

-Interferir não. Influenciar sim! Entretanto, todos são livres para aceitar ou não a nossa influência.

-Agora, mais do que nunca, entendo a sabedoria e a bondade Divina! Deus nos criou livres e será no exercício dessa liberdade que um dia alcançaremos a perfeição.

-Exatamente. À medida que o ser avança no bom uso dessa liberdade, automaticamente aufere a si mesmo recursos ainda mais amplos, alargando seus horizontes em direção à verdadeira felicidade.

-Nesse caso, a lei da relatividade faz sentido.

-Realmente! Tudo é relativo ao nosso grau de evolução.

-Sabe Felipe, apesar de me sentir muito bem estou preocupado com estes hematomas que aparecem no meu corpo.

-Esses pontos escuros que realmente parecem hematomas, são marcas apontando focos de energia em desequilíbrio. São conseqüências do seu desencarne precoce. Representam as partes do seu corpo físico onde o desligamento prematuro do perispírito foram traumáticos.

-Quanto tempo ficarão essas energias em desequilíbrio?

-Alguns desses focos o acompanharão na próxima encarnação e vão se refletir no seu corpo físico como pontos de debilidade.

-Devo entender que poderei renascer com algum tipo de enfermidade?

-Provavelmente! Quando, por meio de uma atitude impensada, ferimos ou destruímos os recursos que a Providência Divina nos empresta, incidimos na lei de causa e efeito que fatalmente nos exigirá uma reparação.

Felipe ficou pensativo por alguns instantes e, depois, arrematou:

-Tenho que ir; não fique preocupado em demasia; mesmo quando ferimos as leis eternas, podemos contar com a misericórdia Divina que, constantemente, auxilia e socorre aos incautos do caminho como nós!

Depois que Felipe partiu, fiquei preocupado; olhei as manchas do meu corpo e quase entrei em depressão. Tive que lutar muito contra os pensamentos que povoaram a minha mente naquele momento. Levantei-me e abri a janela. Do lado de fora, havia uma grande movimentação de espíritos. Caminhavam por entre as árvores floridas que ornamentavam a praça em frente a um belo edifício, cuja arquitetura lembrava o estilo europeu. Alguns espíritos acenavam-me como desejando-me as boas vindas. A visão daquele maravilhoso lugar contribuiu para que eu recuperasse meu estado de ânimo. Começava a sentir-me feliz novamente! Fiquei mais feliz ainda quando Helena chegou para visitar-me.

-Zílio, você está bem?

-Sim! Melhor agora com a sua presença.

-Apesar de estar se sentindo bem, você precisa repousar algum tempo e depois começar a praticar um exercício que o ajudará a esquecer as necessidades do corpo físico. Eu trouxe este caldo de essência etérica para ajudar-lhe a superar a sensação de fome e sede que provavelmente deve estar sentindo.

-Realmente, já começava a sentir-me faminto.

-A sensação das necessidades físicas permanecem no campo mental durante um longo período. Você poderá abreviar esse período exercitando sua mente no esquecimento de tais necessidades.

-Por que, durante o tempo em que estive preso na sepultura e, posteriormente, no vale dos drogados, não senti essa sensação?

- Quando estamos absorvidos por uma situação angustiante, até mesmo quando encarnados, esquecemos de atender nossas necessidades primárias; por isso mesmo, não sentiu fome nem sede. Agora que voltou à normalidade dos pensamentos, sua mente retoma as preocupações e sensações que tinha como encarnado. Começa agora uma nova etapa de lutas que terá que enfrentar.

Enquanto ouvia Helena, tomei o caldo que ela trouxe. O sabor era agradável, não parecia com nada do que já havia experimentado, mas causou-me uma sensação de bem estar alimentado. Então, perguntei:

-Este é o alimento dos espíritos?

-Sim. Mas não dessa forma. Os espíritos evoluídos absorvem naturalmente do Fluído Cósmico Universal a energia que os mantêm. Esse caldo que acaba de tomar é uma condensação desse fluido, levado a um estado de matéria que se identifica com a do perispírito. Absorvido pelas paredes do órgão digestivo, esparge-se por toda organização celular. Com o aproveitamento total dos elementos, não há o que expelir, anulando, assim, as necessidades fisiológicas.

-Quando eu saí daqui para reencarnar, eu tinha o conhecimento de todas essas coisas?

Se tinha, não seria mais fácil ajudar-me a recobrar a lembrança de tais acontecimentos ao invés de desgastar-se respondendo às minhas perguntas que, para você, devem soar como perguntas infantis?

-Assomar completamente suas lembranças do período que esteve aqui traria outras à balia, as quais ainda precisam permanecer no esquecimento. Não deve se angustiar por isso; aos poucos você reassumirá os conhecimentos necessários.

-Que força me impede de recordar?

-Este plano em que estamos é imediato à terra, transcende apenas as regiões umbralinas; portanto, as suas vibrações mentais estão restritas a recordações imediatamente anteriores. Somente quando avançamos nos planos evolutivos é que a nossa potência mental se amplia e nos permite dilatar nossas recordações.

10o Capítulo

Novas Revelações 3

-Perdoa-me, fiz esta pergunta quase que no ímpeto de uma revolta. Pensei ter encontrado uma contradição nas leis; afinal, não seria livre se uma força pudesse se opor à minha vontade. Mas agora, entendo definitivamente a lei da relatividade. Até a nossa liberdade de ação é relativa ao grau de evolução que alcançamos.

-É isso mesmo. Agora devo ir. Amanhã virei buscá-lo para que conheça parte da nossa colônia.

-Helena partiu. Deitei-me e mergulhei em profundas meditações...

-Devo ter adormecido. Acordei novamente com os raios solares invadindo meu quarto. Helena não demorou a chegar.

-Bom dia! Está pronto?

-Sim! Pronto e ansioso!

-Então, vamos.

Saímos ... Na rua era grande o movimento. Os espíritos que passavam por nós comprimentavam-nos, olhando-me com olhares de curiosidade, pareciam conhecer-me.

-Por que me olham assim?

-Muitos deles o conhecem na Terra; afinal, você foi famoso.

-Pensei tratar-se de velhos amigos daqui da Colônia.

-A população desta colônia é constantemente renovada; todos os dias saem daqui centenas de espíritos para novas encarnações, da mesma forma que muitos chegam ao fim de cada experiência terrena.

Seguimos conversando até chegarmos a um edifício com características de uma escola, muito parecida com as que conhecemos na Terra. Entramos...

Helena levou-me até uma sala onde quase uma centena de espíritos sentados pareciam aguardar o início da aula. Helena acomodou-se em uma das cadeira vagas e dirigiu-se para perto do quadro negro. Para minha surpresa, era ela que todos aguardavam.

-Queridos irmãos! Todos os que aqui estão foram resgatados dos diversos vales de sofrimento e trazidos a esta Colônia por amigos que, de alguma forma, monitoram de perto vossas experiências evolutivas.

Eles estão autorizados pelos planos superiores a vos prestar auxílio dentro dos conceitos de justiça e em obediência às leis do merecimento. Entretanto, muitas vezes, esses dedicados companheiros encontram barreiras intransponíveis que os impedem de prestar auxílio mais eficaz aos seus tutelados. As mais graves são: a ignorância e a preguiça. Quando aqui falamos da ignorância, não nos referimos à ignorância dos inocentes, mas sim à ignorância conveniente que se acomoda no leito acetinado da preguiça mental, numa fuga insana da verdade, tentando burlar a própria consciência. Durante esta última experiência que viveram no plano terreno, a grande maioria de vocês e de outros que ainda lá se encontram incidiu nesse erro, embora estivessem preparados para usar os títulos acadêmicos que receberam nas faculdades da Terra para espargir luz nas consciências...Pouco ou nada fizeram!

Onde estão os Filósofos, os Artistas, os escritores que saíram daqui compromissados com a verdade? Venderam e estão vendendo sonhos e ilusões, povoando as mentes dos incautos com quimeras. Onde estão os Esportistas que figurariam nas manchetes da imprensa com exemplos dignificantes. Que fizeram dos recursos de comunicação que Deus colocou em vossas mãos?

Alguns transformaram-se em exímios comerciantes. As aptidões desenvolvidas aqui, sucumbiram frente às vocações antigas. Outros tiveram a encarnação interrompida pela misericórdia Divina, a fim de não se comprometerem ainda mais com as leis de causa e efeito e arrastarem consigo milhares de almas para a derrocada moral.

Não importa agora lamentarmos.

A partir de hoje, começa uma nova fase das vossas existências. Com certeza, amadurecidos pelas experiências menos felizes, irão recomeçar mais fortalecidos. Espíritos experientes ocuparão todos os dias esta tribuna para vos orientar e ajudar-vos a superarem as dificuldades deste momento, preparando-vos para as dificuldades que enfrentarão no futuro. Sejam bem-vindos a esta Colônia que representa um dos departamentos da Misericórdia Divina.

Helena passou a palavra ao espírito que estava ao seu lado, despediu-se de todos e saímos...

Eu estava pasmo diante do quadro que ela expôs a todos nós ali presentes. Enquanto caminhávamos, comecei a meditar. A situação era realmente grave, o índice de fracassos era muito grande. Reconheci, entre aqueles espíritos, alguns artistas, esportistas e comunicadores que gozaram de relativa fama nos meios de comunicação. Captando meu pensamento, Helena me esclareceu:

-Zílio, não existe fracasso absoluto! Tudo é aprendizado; as experiências fracassadas acabam se transformando em valiosos subsídios para vitórias no futuro. Toda tentativa de ajudar é válida. É assim que nós exercitamos e desenvolvemos nossas potencialidades Divinas.

-Você afirmou que algumas encarnações foram interrompidas pela Misericórdia Divina. Então, às vezes, é permitido aos espíritos superiores intervirem em vida?

-Sim! Quando o comportamento de um espírito ou de um grupo de espíritos encarnados irá produzir alguma influência na mente coletiva, se essa influência era criar provações desnecessárias e indevidas a essa coletividade, esses espíritos terão a encarnação imediatamente interrompida.

Helena parou diante de uma edificação que tinha as características de um ambulatório.

-Venha, Zílio! Aqui você vai reencontrar um velho amigo.

Entramos...O cheiro daquele lugar era de um aroma delicioso. Fomos recebidos por um senhor de uns cinqüenta anos. Quando me viu, sorriu e abriu os braços em minha direção:

-Zílio, meu irmão, fico feliz de ver que você está bem!

-Obrigado.

- Meu nome é Diógenes. Sentem-se.

Eu e Helena, sentamos.

Ela virou-se para mim e disse:

-Mostre a eles as marcas que você tem no corpo.

Encabulado, levantei a camisa. As marcas eram quase todas na região do ventre. Diógenes as examinou e pediu que eu deitasse em uma mesa igual as que se usam nos consultórios médicos.

-Algumas delas eu posso eliminar, mas as que estão na região hepática, ficarão. Só em uma próxima encarnação é que poderá eliminá-las.

-Elas são as marcas da minha estupidez.

-Tranquilize-se, elas aqui, vão lhe atrapalhar em nada, deixa para se preocupar com elas quando estiver novamento encarnado.

Enquanto conversava comigo, massageava meu ventre e tórax. Quando terminou, vi que restava apenas a mancha escura na região do fígado e pâncreas.

-Pronto! Com certeza a partir de agora vai sentir-se melhor.

-Zílio, Diógenes é um velho amigo nosso, faz parte do nosso grupo; no passado estávamos encarnados juntos. Resgatamos alguns dos nossos crimes nas fogueiras e nos calabouços da inquisição. Foram momentos importantes para o nosso grupo. Muitos de nós, saímos daquela encarnação quase que completamente redimidos.

-Com certeza, eu não sou um deles.

-Quase todos nós, espíritos em evolução, carregamos uma determinada fraqueza que se sobressai às outras; é o nosso calcanhar de Aquíles. Conseguimos caminhar longos períodos no trajeto das nossas experiências evolutivas, administrando muito bem as nossas encarnações; entretanto, quando em uma delas temos por objetivo vencer tal fraqueza, enfrentamos grandes dificuldades. Zílio, o seu calcanhar de Aquíles tem sido a revolta. Após cada encarnação que você realizou, o seu retorno à nossa esfera foi marcado por uma grande revolta. Nesta, apesar de tudo o que você passou, o seu retorno, de certo modo, foi pacífico. Deve se alegrar por isso, talvez seja o início do fim de um processo que se vem arrastando há muito séculos.

-Espero que esteja certa. Sinto em meus ombros o peso desses séculos. O que mais desejo agora é poder descansar um bom tempo aqui entre vocês.

-Realmente, terá que repousar o tempo necessário para efetivar a recuperação das energias gastas nos excessos praticados no plano físico. Você está aqui na condição de enfermo em convalescença. Deverá tomar o caldo diariamente, até estar completamente recuperado.

-Zílio, Helena está certa. Você está aqui sob nossa intercessão e responsabilidade. Embora sinta que está muito bem, nesse período de recuperação, talvez venha a experimentar momentos de crises profundas. Elas ainda não se manifestaram porque está vivendo um momento onde tudo a sua volta é novidade. Entretanto, quando esse clima se esgotar, ninguém poderá prever para onde se direcionará as suas preocupações. Provavelmente sentirá um impulso muito grande para retornar à Terra e rever o lar, os amigos, abraçar os entes queridos, porém, devemos adverti-lo de que, se obedecer a esse impulso e projetar-se para o ambiente terrestre, voltará automaticamente ao ponto de partida da excelente recuperação que alcançou até aqui.

-Como devo proceder para evitar que esses impulsos acabem por impedir-me em direção a Terra?

-Cultive a oração. Ela contribuirá para dar-lhe as forças necessárias para resistir. Caso precise de ajuda recorra a mim, ou a Felipe, ou então a Helena.

-O ideal seria se eu pudesse praticar alguma atividade a fim de que eu pudesse distrair-me.

-Durante mais alguns dias, o importante é repousar. Mantenha-se no apartamento e aproveite para ler algumas obras que lá estão. Quando estiver pronto para exercer alguma atividade, nós o convocaremos. Agora retornemos aos seus aposentos.

Após a recomendação, despedimo-nos de Diógenes e retornamos. Helena, ao deixar-me no apartamento, lembrou-me várias vezes de necessidade de repouso. Mais uma vez experimentava a solidão. Era difícil aceitar aquela disciplina que me impunha condições e normas; não batia com o meu modo de ser. Sempre gostei de ser livre, agora minha liberdade assustava-me. Queria realmente voltar a Terra, rever as pessoas que eu amo, abraçar meus amigos. Eu estava trocando este prazer por uma vida que nem mesmo conhecia direito. Naquele momento, entre em luta com a minha consciência.

-Será que vou agüentar uma vida regrada? ceder a essas imposições não significa realmente fraqueza? Não seria melhor fazer o que eu sempre queria como sempre fiz e agüentar as conseqüências?

Naquele momento eu já estava tremendo, meu sistema nervoso havia se desequilibrado totalmente. Ouvi uma voz conhecida:

-É isso malandro, reage, não se deixe dominar. Basta pedir, eu dou um jeito para sair daí agora mesmo, aqui você vai ser feliz de verdade, poderá fazer o que quiser e na hora que bem entender. Seus amigos estão saudosos. Venha. Venha...

Senti um estranho prazer dominando-me. Estava quase aceitando o convite quando Felipe entrou no quarto:

-Zílio, Zílio! Acalme-se, olhe para mim, sou eu, Felipe.

Ainda ofegante, estendi minhas mãos ao Felipe e comecei a chorar:

-Felipe, por favor, ajuda-me. Não vou resistir.

-Vai sim. Tenha fé em Deus e em si mesmo, estes são momentos importantes para você se fortalecer.

-Como se chama aquele homem que foi buscar-me na sepultura e vez ou outra surge na minha mente?

- Aquele é o nosso irmão Augusto, o único do nosso grupo que ainda não acordou.

-Por que ele goza de tanta liberdade?

-Sua liberdade está com os dias contados, a cada passo ele se projeta para um abismo de sofrimentos onde os meses parecerão anos e os anos parecerão séculos e os séculos, uma eternidade.

-Nada pode ser feito para ajudá-lo?

-Tudo já foi feito em seu favor. Helena, por duas vezes, mergulhou em encarnações dolorosas tentando salvá-lo, mas ele se mostrou refratário aos recursos que a Providência Divina deliberou em seu favor.

-Sei que ainda estou numa corda bamba. Mas se eu conseguir me firmar nessa proposta de renovar meus conceitos, eu poderia um dia ser livre para ir aonde eu bem entender, sem comprometer-me com as leis que agora me impõem restrições?

-Agora, são as circunstâncias que lhe impõem restrições. Amanhã, quando pelo conhecimento você dilatar a própria consciência será ela que apontará as restrições necessárias para que não venha a ferir as leis e, conseqüentemente, comprometer-se com elas. eu trouxe o caldo para você tomar. Procure descansar; amanhã eu retorno.

Felipe retirou-se. Eu tomei o caldo e deitei-me. Comecei a meditar sobre todos os percalços por que havia passado desde a minha morte. Realmente, eu ainda estava frágil. As lembranças surgiam como uma descarga elétrica em todo o meu corpo. Relaxei, tentando concentrar-me no presente, afinal estava amparado por verdadeiros amigos. Lembrei-me da recomendação de Helena, peguei um livro na estante e comecei a lê-lo. Não era o mesmo que havia lido anteriormente. No seu conteúdo, encontrei respostas a quase todas as minhas indagações. Tratava-se de um orientador prático da vida nos diversos planos; quanto mais eu lia, mais aumentava meu entusiasmo para continuar lutando. Os planos superiores de vida que ali eram descritos, mesmo que eu quisesse descrevê-los, seria tarefa impossível.

Entendia agora o quanto vale a pena o homem redimir-se , mesmo à custa de muitos sofrimentos que, na verdade, nada significam perante a felicidade que se pode alcançar. Eu sempre imaginei que havia algo mais na vida, passei noites devorando livros procurando a lógica do Universo, mas minha visão e o meu entendimento, embotados pela matéria, não me deixavam aceitar a possibilidade de que a nossa realização maior, estivesse fora dela. Sempre acreditei na vida eterna, mas a literatura Espírita, para mim, era muito simplista. Agora vejo que é nela que o homem encontrará as coordenadas que poderão direcionar sua vida rumo à felicidade.

11o Capítulo

O resgate da Mirna

Passaram-se alguns meses da chegada à Colônia; sentia-me fortalecido. Experimentei momento difíceis, mas, com o apoio de Helena e Felipe, consegui superá-los. Percorri as ruas e edifícios, conheci espíritos maravilhosos que periodicamente visitavam a Colônia, trazendo alento das esferas superiores. Cada vez mais se fortalecia em mim o desejo de ascender para um plano melhor; estava obstinado; essa era agora a minha meta. Certa manhã, Helena veio convocar-me ao trabalho. Vibrei de alegria!

-Calma Zílio, o trabalho que nos aguarda é bastante delicado; eu não vou participar diretamente. Denius irá acompanhá-lo. Precisamos resgatar alguém muito importante para nós e que está sob o domínio de espíritos infelizes.

-Quem é Denius?

-Denius é um colaborador da nossa Colônia que presta seus serviços em um posto avançado próximo às zonas inferiores, ele tem acesso livre no Vale dos prazeres.

-Quem é esse espírito importante para nós?

-É Mirna. Faz parte do nosso grupo, devemos isso a ela.

-Acredita que eu possa realmente ajudar?

-Você é o mais indicado. A afeição que sente por você, poderá ser útil para trazê-la de volta. Lá você colherá valiosos recursos para o próximo trabalho que deverá realizar.

-Eu a reconhecerei quando estiver diante dela? Ela participou desta última encarnação?

-Não, Zílio. Não a reconhecerá, mas ao se aproximar, com certeza você a envolverá num clima de simpatia, com isso terá facilidade em influenciá-la beneficamente.

-Quando realizaremos este trabalho?

-Agora mesmo vamos ao encontro de Denius. Mas antes façamos uma oração para pedirmos a proteção dos planos superiores.

Oramos por alguns instantes. Logo depois, helena pegou-me pelo braço e fomos transportados. Parecia um daqueles sonhos que eu tinha quando criança; eu estava voando e não era um sonho lindo! Em poucos instantes, chegamos ao local do encontro. O lugar era rodeado de rochas enormes; dali se avistava uma grande cidade construída no centro de um vale. O som que se ouvia era característico do carnaval; as baterias e as cantorias ecoavam as montanhas que circundavam aquele imenso vale.

-Onde estamos? Que lugar é este

Perguntei admirado.

-Este é o Vale dos Prazeres. Mirna está lá; terão que encontrá-la e trazê-la para nossa Colônia para que possamos ajudá-la. Ultimamente, ela tem demonstrado uma forte tendência para sair do vale. Suas preces têm chegado até nós como um pedido de socorro. Grave bem tudo que irá ver lá embaixo, pois será muito útil no futuro.

Fiquei contemplando aquele vale; a batucada já não me inspirava alegria que eu sentia quando estava na Terra, pelo contrário , abateu-me uma profunda tristeza que só foi quebrada quando Denius chegou. Helena não perdeu tempo.

-Denius, este é Zílio! Você irá acompanhá-lo até o vale. Use dos recursos que você possui para conduzi-lo até o lugar onde está Mirna.

-Sim, senhora, com a graça de Deus nós vamos trazer a menina sã e salva.

Helena despediu-se. Denius aproximou-se de mim e , com uma certa reverência, começou a falar:

-Senhor Zílio, nós vamos ter que caminhar até lá em baixo. A picada daqui até lá é muito ruim; se precisar, pode se apoiar em meu ombro.

-Não se preocupe, vou conseguir.

Admirei-me ao ver aquele espírito enorme, com o peito nu, revelando uma musculatura abundante bem delineada. Usava apenas uma calça de seda e sandálias de couro. Sentia-me seguro ao seu lado. Continuamos descendo até chegarmos a uma praça onde ficavam os portões da cidade. Eram portões enormes, aparentemente de madeira. Estavam fechados. Ali embaixo o ar era mais pesado. O som continuava no mesmo ritmo; para mim, já não soava como música, mas como terrível barulho. Denius aproximou-se de um dos portões e bateu. Uma portinhola no meio do portão se abriu. Uma voz perguntou:

- Quem ousa perturbar o Reino de Mohara?

Denius respondeu rapidamente:

-Viva Mohara! O senhor dos prazeres. Senti muito medo, mas consegui equilibrar-me. O enorme portão foi se abrindo lentamente; logo surgiu um espírito vestido em trajes que lembrou -me os piratas.

- Denius meu amigo, porque demorou tanto para retornar? A alegria o espera.

-Eu trouxe um amigo para visitar o Reino de Mohara, podemos entrar?

Denius pegou-me pelo braço e entramos rapidamente. Avançamos em direção do centro onde se concentrava o movimento maior; as ruas estavam ao abandono; via-se sujeira por todos os lados ; não havia vegetação; os espíritos passavam por nós dançando com frenesi. Chegamos ao centro. Verdadeiras escolas de samba desfilavam pelas ruas. O sexo era praticado em pé, ao som dos tamborins. As fantasias eram verdadeiras réplicas das que eu conheci na Terra; o enredo exaltava as delícias da carne. Quase fui envolvido pelo clima de sensualidade que pairava no ar. Cheguei a ficar excitado. Lembrei-me dos sofrimentos que havia passado e consegui controlar-me. Denius, percebendo, puxou-me pelo braço e advertiu-me:

-Senhor Zílio, procure lembrar-se dos nossos amigos que estão neste momento orando por nós.

-Você tem razão. Fique tranqüilo, não vou deixar envolver-me. Para onde vamos agora? Onde encontraremos Mirna?

-Mirna está na sede do comando; ela é concubina do Mohara.

-Quem é Mohara?

-Mohara é um gênio! Com a sua inteligência, conseguiu construir um verdadeiro império das trevas. Vive de barganhas com os encarnados; aqueles que ele favorece, quando desencarnam e chegam aqui, tornam-se seus súditos e escravos.

-Como faremos para entrar na sede do comando e chegar até Mirna?

- Fui informado que Mohara subirá até a crosta. Deverá partir esta noite. Eu tenho amigos lá dentro; não será difícil, venha. Helena pediu-me para mostrar-lhe algumas coisas; aproveitemos antes que anoiteça.

Denius entrou por uma viela e eu o segui; caminhamos até um lugar estranho e sombrio. Entramos por um portão que estava entreaberto. Denius afirmou:

-Aqui é o cemitério da cidade.

-Eles chamam este lugar de cemitério porque aqui eles abandonam os espíritos que já não causam prazer a ninguém. São aqueles que, movidos pelo remorso, buscam a anulação de si mesmos em uma atitude auto-punitiva.

À medida que avançávamos terreno a dentro, comecei a ver espíritos vagando de uma lado para o outro; a fisionomia deles lembravam a de animais. Denius fez um sinal para acompanhá-lo em direção a uma rocha com uma grande fenda que parecia uma caverna; ali, um deles estava como que agonizante. Seu aspecto era terrível, seus ombros caídos, o rosto afunilado como um enorme bico, sua cor acinzentada escura, lembrava uma ave de rapina. Diante do meu espanto, Denius explicou-me:

-O remorso excessivo que o nosso irmão experimenta, faz com que se sinta com uma ave de rapina; o seu perispírito, obedecendo à força do seu pensamento, assume a forma que reflete o seu estado de espírito.

-Quais crimes que praticou para chegar a essa situação?

-Nosso irmão era médico legista; violentou quase todos os cadáveres de mulheres que passaram por suas mãos.

Eu quase não acreditava no que estava vendo, mas, por outro lado, ficou claro ao meu entendimento que Deus não precisa julgar ninguém, todos temos em nossa consciência um tribunal onde somos nosso próprio juiz e carrasco. Naquele caso, nosso irmão estava sendo impiedoso consigo mesmo.

-Denius, quanto tempo um espírito fica nessas condições?

-Ficará nessas condições até que um dia consiga perdoar a si mesmo e comece a buscar a renovação dos sentimentos. Venha, vou mostrar-lhe mais um caso de zoantropia.

Aproximando-nos de um espírito, cujos braços grudados no corpo escamoso e o rosto transfigurado, assemelhava-se a uma serpente. Era uma figura impressionante. Diante daquele quadro, cheguei a questionar se eu realmente não estava vivendo um sonho ou um terrível pesadelo.

-Realmente, Zílio, se enveredarmos pelos caminhos tenebrosos do mal, nossa vida se transforma em um terrível pesadelo.

- Quais são os crimes desse pobre infeliz que se afigura como réptil?

12o Capítulo

O resgate da Mirna 2

-Esse irmão foi um político que traiu a fé pública. Usou o poder que o estado lhe conferiu, para atender à própria ganância. Os recursos que administrava, destinavam-se a suprir os hospitais públicos no atendimento à saúde. Mergulhado agora em remorso profundo, sua mente é povoada pelos gritos desesperados das vítimas das suas atitudes criminosas.

Agora compreendia as afirmações de Jesus contidas no evangelho: "Aqueles que têm sede de justiça serão saciados." Ninguém fica impune à própria consciência. Cedo ou tarde, ele agirá Erros praticados. Era grande o número de espíritos que vagavam naquele lugar, vítimas da zoantropra. Fiquei feliz quando Denius chamou-me para nos retirar-nos dali.

-Vamos senhor Zílio, já começa anoitecer; temos que ir ao encontro de Mirna.

Saímos por um outro lado; alcançamos uma grande avenida. O colorido extravagante predominava nas fachadas das casas; mulheres se exibiam nas calçadas com os corpos expostos. As edificações que compunham aquela estranha cidade tinham formas burlescas; em nada se assemelhavam às edificações tradicionais, como as da Terra, ou mesmo da Colônia onde eu estava abrigado. Curioso, perguntei ao Denius:

-De que forma são construídos esses prédios?

-Todas as edificações aqui são o reflexo das mentes que predominam neste lugar; é a materialização do pensamento e da vontade predominante. É o paraíso com que sonhavam.

-Como que o espírito, após a desencarnação, vem parar aqui?

-Muitos, mesmo enquanto encarnados já estão ligados a este lugar. Observa que, ao anoitecer, o número de espíritos envolvidos nessa orgia interminável, aumenta consideravelmente. São os encarnados que começam a chegar. A grande maioria é de espíritos irresponsáveis viciados de toda a sorte. Mal o corpo adormece, projetam-se para cá. Nas madrugadas, esse número ainda é maior.

-Percebo que muitos dos espíritos que participam desse desfile insano aparentam estarem embriagados. Estão realmente?

-sim. Completamente embriagados!

-De que forma se embriagam?

-Os viciados sobem até a crosta e peregrinam pelos bares, sugando os alcoólatras encarnados. O que embriaga não é o álcool líquido que desce para o estômago, são os vapores alcoólicos que sobem para o cérebro. Em um verdadeiro ato de vampirismo, o desencarnado suga esses vapores antes de atingirem o cérebro do encarnado. Com isso, a tendência do alcoólatra encarnado é beber cada vez mais.

-E com os viciados em drogas, acontece o mesmo processo?

-Com as drogas injetáveis o processo é outro e mais traumatizante. As substâncias alucinógenas não produzem vapores; elas chegam ao cérebro do viciado através do sangue. Para alcançar seus objetivos, os viciados desencarnados sugam uma grande porção da parte etérica do plasma sanguíneo, através dos orifícios abertos pelas picadas das agulhas hipodérmicas.

-Quais as conseqüências desse vampirismo desse vampirismo para os encarnados em questão?

-Um enfraquecimento progressivo até a debilidade mental e física.

-Todos os viciados vampirizados?

-Quase todos, com raras exceções.

-Você afirmou que Mohara vive de barganhas com os encarnados; que tipo de barganhas?

-Mohara e suas falanges dominam os meios de comunicação na crosta. A grande maioria daqueles que estão em evidência deve o sucesso à influência de Mohara. Por isso, a verdadeira arte não encontra espaço nesse meio e nem alcança o sucesso merecido. O burlesco acaba predominando no meio artístico.

-A coletividade desta cidade retrata fielmente o nível de degradação a que chegou a arte na Terra.

-Realmente. Daqui parte a inspiração para a maioria das criações artísticas que são apresentadas na crosta. As músicas que você ouve aqui, agora, breve serão executadas lá.

-Esses espíritos não reencarnam? Não há uma lei que os force a buscarem um reequilíbrio?

-Esta cidade sempre foi dominada por sexólatras e viciados de toda a sorte. Já foi evacuada uma vez nos anos trinta e quarenta. Os espíritos que aqui habitavam naquela época, atendendo a determinação superior, foram submetidos a reencarnações compulsórias. Renasceram em vários pontos do planeta; muitos se redimiram, outros deram expansão aos vícios e promoveram na Terra uma grande revolução cultural em torno da arte, do sexo e das drogas, submetendo a humanidade a grandes provações morais.

Enquanto Denius falava, ouvi uma gritaria que me chamou a atenção.

-Zílio, essa gritaria significa que Mohara está subindo para a crosta. Vamos aproveitar para resgatar Mirna.

Partimos em direção ao prédio onde Mirna estava. Denius bateu novamente. Foi em vão; ninguém atendeu.

-É estranho, vamos tentar na porta dos fundos. - afirmou Denius.

Quando chegamos na parte de trás do prédio, a porta estava entreaberta; nós nos aproximamos e ouvimos alguém chorando. Denius entrou; eu não sabia se deveria entrar. Fiquei aguardando até que ele apareceu na porta e fez sinal para eu entrar. Entrei. Denius me conduziu até uma sala recoberta por tapetes vermelhos. Na parte onde o piso era mais alto, estava uma mulher sentada numa cadeira que parecia um trono; seus pés estavam apoiados sobre a cabeça de uma jovem que estava caída e chorava muito; percebi que era Mirna.

-Minha rainha, este é Zílio de quem lhe falei a pouco.

-Então você é o renegado que quer a minha escrava?

Denius, percebendo que eu ficara surpreso e desconcertado diante da pergunta, adiantou-se e tomou novamente a palavra.

-Minha rainha, senhora dos prazeres! Meu amigo nutre pela jovem profunda afeição e a deseja para satisfazer seus desejos mais íntimos. Sei que a jovem tem sido um tropeço nas suas relações com Mohara, talvez, esta seja a oportunidade que estava esperando para livrar-se dela.

A mulher tirou os pés que estavam apoiados sobre Mirna, pegou-a pelos cabelos e, levantando sua cabeça, perguntou-lhe:

-Você quer ir com eles?

Mirna olhou para Denius, olhou para mim, suspirou, abaixou o olhar demonstrando cansaço, firmou novamente o olhar em mim por alguns instantes e afirmou:

-Quero!

-Então vá maldita. Sumam daqui antes que eu me arrependa.

Denius pegou Mirna pelo braço e nós saímos rapidamente. Na rua, longe dali, paramos para que Mirna pudesse descansar. O barulho continuava insuportável. Os tambores e as cantorias incessantes ecoavam por todo o vale. Aproximei-me de Mirna.

-Como você está? Está melhor agora?

Mirna olhou para mim, fixou seu olhar em meus olhos durante algum tempo e perguntou-me:

-Nós nos conhecemos?

-Talvez. Mas no momento não posso afirmar que sim.

-Para onde estão me levando?

- Estamos levando você ao encontro de verdadeiros amigos que desejam seu bem.

Ela apontou para Denius e disse-me:

-Ele disse que você me queria para realizar seus mais íntimos desejos.

-Realmente, naquele momento e agora, o meu mais íntimo desejo é ver você livre e feliz.

-Ainda bem! Pensei que jamais ia sair deste inferno.

Mirna olhou para mim e sorriu. Olhei bem para o seu rosto semi-coberto pelos longos e belos cabelos pretos. Seus olhos, também negros, revelavam agora um grande contentamento interior. Senti vontade de tomá-la em meus braços e beijar-lhe carinhosamente. Desejei passar minha mão por entre seus cabelos, quis falar-lhe alguma coisa, mas Denius interrompeu-me convidando-nos a partir. Partimos. Quando chegamos próximo aos portões da cidade, Denius parou e advertiu-nos:

-Esperemos aqui até que os espíritos que sobem à crosta, em busca dos parceiros encarnados, comecem a sair. Geralmente saem em grupos; devemos nos juntar a um desses grupos para sairmos sem problemas.

Enquanto esperávamos, perguntei a Denius:

-Você disse que os espíritos vão buscar parceiros encarnados?

-É isso mesmo, Zílio. As relações entre encarnados e desencarnados vão além do que você possa imaginar.

-Que tipo de relação?

-Muitos dos encarnados ocupam um lugar na sociedade onde o jogo de aparências predomina; nesse jogo, apresentam uma conduta inquestionável, entretanto, guardam, no íntimo , paixões e vícios inconfessáveis. Com medo de serem descobertos, represam esses sentimentos. Porém, à noite, quando adormecem e se acham livres do corpo físico, buscam suas afinidades e se entregam a essas paixões.

-Se o encarnado durante a vigília reprime essas paixões e as pratica somente quando se liberta do corpo físico, qual o grau de culpabililidade? Essa não é uma atitude involuntária?

-Zílio, quem comanda o corpo é o espírito, portanto, a culpabilidade é do espírito; ele não pratica tais paixões durante a vigília porque isso lhe traria prejuízos e conseqüências imediatas, ferindo seus interesses, então, ele deixa para praticá-las quando acredita que não será descoberto.

-Como lidar com essa situação?

-Não basta ao espírito represar suas fraquezas; é necessário substituí-las por virtudes, porque, cedo ou tarde, essas fraquezas virão à tona.

- Eu reconheci alguns espíritos pelas ruas e avenidas; pensei tratar-se apenas de semelhança. É possível que alguns deles sejam os próprios encarnados que eu conheci na Terra?

-Provavelmente. A quantidade de encarnados, aqui nas madrugadas, é muito grande. Vejo que você esta atento na observação dos fatos ; isso será muito importante para a realização de um trabalho que te aguarda em um futuro próximo.

Quando ia perguntar qual seria esse trabalho, surgiu um grupo de espíritos dirigindo-se aos portões. Denius fez um sinal e nós aderimos ao grupo. Saímos sem sermos notados pelo guardião. Mais adiante, começamos a subir a encosta do vale. Mirna se apoiou em Denius até chegarmos ao local onde Helena e Felipe nos aguardavam. Após agradecermos a Denius, Helena e Felipe envolveram a mim e a Mirna e todos nos transportamos para a Colônia. Helena entregou Mirna aos cuidados de Diógenes; eu e Felipe fomos para o meu apartamento. Ao chegarmos, Felipe sentou-se na poltrona e eu deitei-me na cama. Senti, pelo seu olhar, que estava curioso para saber das experiências pelas quais eu havia passado. Mas eu estava mais ansioso. Antes que perguntasse qualquer coisa, eu desabafei:

-Felipe, meu amigo, graças a Deus, hoje eu me senti útil.

-Fiquei feliz ao ver que você foi bem sucedido nessa tarefa tão difícil.

-É como se eu voltasse de um sonho bizarro. Jamais imaginei que pudesse existir um lugar como aquele. Foi uma experiência incrível. Se eu não tivesse passado pelo sofrimento que eu passe no vale dos drogados, talvez tivesse sucumbido às tentações daquele lugar.

-É, Zílio, o sofrimento é a forja que tempera nossas forças. Por falar nisso, o caldo está sobre a mesa; não se esqueça de tomá-lo, você ainda precisa dele.

Felipe saiu; eu tomei o caldo e deitei-me.

13o Capítulo

A missão

Acordei pela manhã, abri a janela e respirei fundo. O ar parecia alimentar meu corpo; será que estava conseguindo subtrair energia do éter? Estava questionando essa possibilidade, quando Felipe entrou. Sorrindo, cumprimentou-me:

-Bom dia!

- Bom dia! Em um lugar como este onde estou rodeado de amigos como você, todos os dias são bons. Como está Mirna?

-Depois que chegou eu não tornei a vê-la. Sob os cuidados de Diógenes, deve estar muito bem.

- Com certeza! Felipe, diga-me uma coisa, quem é Mirna?

-Zílio, os espíritos comprometidos com os acontecimentos da velha Lemúria são muitos; a maioria está dispersa, cada qual buscando os caminhos da própria evolução. Você, Mirna, Helena, Diógenes, eu e outros ainda encarnados, quase sempre nos mantivemos juntos. Somos um grupo de apoio mútuo.

-Por isso você dói socorrer-me no Vale dos drogados?

-Sim. Na verdade eu não atuo naquela área; minhas principais atribuições estão vinculadas aos colaboradores encarnados.

-Há quanto tempo Mirna estava presa a Mohara?

-Há várias encarnações ela vem sucumbindo às tentações da luxúria. Tornou-se um espírito bom, mas facilmente é dominada por mentes doentias; sua fraqueza a manteve escrava de Mohara por muitos anos. Talvez agora , amadurecida pelo sofrimento imposto pela própria fraqueza, tenha adquirido a força necessária para enfrentar novas experiências com maior segurança. Helena deverá transferi-la para a Estância do Amor, onde se relacionará com espíritos que contribuirão para o seu progresso.

-Quando a vi, senti um amor fraterno por ela, algo muito forte. Qual a minha ligação com ela?

-As marcas de uma encarnação, cuja convivência foi intensa entre dois espíritos, permanecem e, com a reaproximação dos dois, mesmo em um futuro distante, essas marcas assomam do subconsciente como um sentimento nato de amor ou de adversidade.

-Esse sentimento que eu experimentei ao vê-la, significa que já estivemos juntos algum dia?

- Sim, várias vezes estiveram juntos.

-Então o amor e o ódio à primeira vista não existem?

-Quase sempre são reencontros cujas afinidades, ou adversidades, foram construídas anteriormente.

-Sabe, fiquei, fiquei impressionado com o Vale dos Prazeres. Existem outras cidades iguais aquela?

-Existem muitas, iguais ou parecidas em quase todos os pontos da Terra. Essas cidades são construídas nos vales que existem na subcrosta; são consideradas zonas inferiores do planeta. Estão localizadas próximas às coletividades onde estão vinculados os espíritos que as edificaram. Cada qual tem as características dos costumes e da cultura dessas coletividades.

-Eu comentei como Denius que eu havia visto lá espíritos que eu conheci na Terra e que, provavelmente, devem estar ainda encarnados. Quando desencarnarem, irão fatalmente para aquele lugar?

-Se não efetivarem uma renovação dos seus sentimentos e abdicarem das paixões que os projetam a esse plano inferior, com certeza, estarão lá, após desencarnarem.

-Quando estávamos lá, em determinado momento, senti-me envolvido naquele clima de luxúria; quase cedi aos impulsos que experimentei naquele instante. Porque?

-Você , quando encarnado, foi influenciado durante algum tempo pelo agentes de Mohara. Augusto era um deles, mas, com o apoio de Helena e mais tarde com o benefício da enfermidade, acabou se libertando dos laços que o prendiam àquela organização infeliz.

-Agora eu entendo porque a mulher de Mohara chamou-me de renegado.

-Para eles, realmente você é um renegado.

Estávamos ainda conversando, quando chegou Helena.

-Então, o que achou da sua experiência no Vale dos Prazeres?

-Foi para mim algo inusitado! Por pouco não sucumbi!

-Eu tinha certeza de que iria conseguir; agora posso contar com você para realizar um outro trabalho na crosta.

-Quando deverei realizá-lo?

-Vou levar Mirna para a Estância de Amor; você irá nos acompanhar. Lá o apresentarei a um companheiro que vai ajudá-lo a realizar este trabalho.

-Quando partiremos?

-Agora mesmo. Mirna nos espera.

Despedi-me de Felipe e saímos. Caminhamos até o ambulatório onde Mirna nos aguardava. Ela estava linda; seus cabelos brilhavam refletindo os raios do sol que invadiam a sala através da janela. Diógenes fez-lhe algumas advertências, logo depois, Helena segurou em nossas mãos e envolvendo-nos com sua luz, partimos...

Em poucos instantes, estávamos na Estância de Amor. O lugar possuía uma beleza peculiar; todas as edificações eram rodeadas de maravilhosos jardins. Quase todos os espíritos que passavam por nós tinham a aparência jovem. Mirna estava encantada com o que via. Emocionada perguntou a Helena:

-Estamos no Paraíso?

-Aqui é um lugar aprazível, o bem vibra no éter. Para nós, espíritos em redenção, é realmente um paraíso, embora o significado da palavra paraíso seja relativo ao grau de compreensão de cada um, para muitos , ainda o paraíso está no Vale dos Prazeres.

Enquanto conversávamos, chegamos frente a um prédio o qual , segundo Helena nos informou, era o prédio da coordenadoria da Estância. Entramos...

Fomos recebidos por um espíritos chamado Venâncio que, sorrindo, cumprimentou-nos, demonstrando conhecer Helena.

-Minha querida Helena! Que ventos benéficos a trouxeram até nós?

-Esta é a Mirna; trago-a para ficar sob os cuidados desta Estância onde, com certeza, encontrará os recursos de que precisa neste momento importante de sua vida. Este é Zílio; em breve deverá efetuar um trabalho e precisa do apoio de alguém com experiência para poder desempenhá-lo.

-Qual o trabalho que terá que realizar?

-Zílio terá que se preparar para escrever para os encarnados; deverá relatar as suas experiências aqui no mundo espiritual.

-Temos, nossa Estância, o Eduardo que poderá ajudá-lo bastante. Pode deixá-los aqui que nós o acomodaremos e providenciaremos tudo o que eles precisam.

Quando Helena falou que eu iria escrever, não consegui esconder minha emoção. Sorrindo, ela aproximou-se de mim e falou:

-Zílio sei o quanto está feliz, mas devo adverti-lo da importância dessa missão. Escrever aos encarnados sobre as experiências que viveu após desencarnar tem por principal objetivo advertir os jovens e os pais encarnados. Não deverá citar nomes de parentes ou de amigos; limite-se apenas a descrever com detalhes as conseqüências causadas pelo uso de drogas e pelo suicídio involuntário.

Helena agradeceu a Venâncio e despediu-se. Eu, aflito, perguntei:

-Depois de realizado o meu trabalho retornarei para junto de você e de Felipe?

-Sem dúvida, ainda temos muito o que fazer juntos.

Senti-me aliviado. A idéia de separar-me deles causara-me uma certa tristeza. Não demorou muito, entrou, na sala em que estávamos, um espírito de aparência jovem. Venâncio levantou-se e apresentou-nos:

-Este é Eduardo; faz parte de uma das equipes que atuam entre nós.

Cumprimentou-nos e Venâncio continuou:

-Mirna está aqui para receber os benefícios da nossa Estância. Deverá encaminhá-la para os cuidados de Afrânio. Zílio precisa realizar um trabalho de comunicação com os encarnados; você deverá orientá-lo.

Eduardo agradeceu a Venâncio pela incumbência; passou seus braços sobre nossos ombros e saímos. Na rua, começamos a conversar...

-Você me lembra um cantor famoso da época em que eu ainda era encarnado.

-Sou o próprio. O Rei da insensatez! Na Colônia onde estou domiciliado, todos me conhecem como Zílio; é o nome que eu tinha antes de reencarnar.

Mirna parou, olhou bem para mim e falou demonstrando surpresa:

-Então é você? Eu sabia que o conhecia! Quando o vi no Vale dos Prazeres, tentei lembrar-me mas na consegui.

- Na Terra, sentia-me feliz ao ser reconhecido; aqui experimento certo constrangimento e vergonha.

Eduardo nos conduziu até um prédio não muito longe da Coordenadoria. Entramos. As dependências internas lembravam-me as de um hotel; uma sala grande , com poltronas, onde mais de uma dezena de espíritos sentados, conversavam descontraidamente. Um deles levantou-se e aproximou-se de nós.

Eduardo adiantou-se e apresentou-nos.

-Afrânio, este é o Zílio e esta é Mirna.

Afrânio sorriu para nós e Eduardo continuou:

-Venâncio recomendou que deixasse Mirna sob seus cuidados. E eu terei que me ausentar das tarefas por algum tempo; devo acompanhar Zílio em um trabalho junto aos encarnados.

Despedimo-nos de Mirna, de Afrânio e saímos. Na rua, perguntei ao Eduardo:

-Por que Mirna foi transferida para cá?

-Afrânio desenvolve um trabalho de ajuda aos espíritos fracos e dependentes, facilmente influenciáveis. São aqueles que, em determinado momento da própria existência, acabam anulando a própria vontade, acomodando-se a uma dependência doentia. Provavelmente, Mirna se enquadra em tal situação.

-Realmente, quando a encontramos estava subjugada por mentes doentias.

-A vontade é a alavanca do progresso em qualquer plano da nossa existência. Sem ela, nos tornamos joguetes das circunstâncias.

-Quando desceremos à crosta?

-Hoje à noite faremos os primeiros ensaios. O trabalho de comunicação com os encarnados requer muita paciência e dedicação. Vamos realizar, primeiro , um trabalho de aproximação. Quando o médium, para quem você deverá passar as informações, registrar a nossa presença é que se iniciará um processo de comunicação que poderá se arrastar por muito tempo.

Naquela mesma noite, eu e o Eduardo descemos para a crosta. Quando chegamos ao grupo de encarnados onde eu deveria fazer contato com o médium, fiquei surpreso. Eu conhecia aquelas pessoas; foi ali que Felipe socorreu-me com o auxílio dos encarnados. Ele estava presente; quando nos viu aproximou-se.

-Que bom! Vejo que já está iniciando o seu trabalho.

Eu estava apreensivo e nervoso. Então, perguntei ao Felipe:

-Vai sim! O médium registrou a sua presença aqui, por ocasião do seu tratamento. Com certeza isso facilitará o seu trabalho; além do mais Eduardo estará ao seu lado e saberá orientá-lo.

Fiquei mais tranqüilo. Esperamos terminar a reunião e acompanhamos o médium até sua casa. Ali Eduardo orientou-me:

-Zílio, a partir de agora você deverá acompanhar o nosso irmão no seu dia-a-dia. Quando ele registrar a sua presença, procure transmitir-lhe através do pensamento, o desejo de escrever. Com certeza ele vai captar sua vontade; então será a hora de você começar a transmitir seus depoimentos.

A partir daquela noite, iniciei o meu trabalho. Não foi uma tarefa fácil, mas consegui chegar ao final, graças à valorosa ajuda do Eduardo. Espero que, ao relatar minhas experiências após a morte física, ela venham ajudar a muitos que , como eu, optaram pelos caminhos equivocados das drogas e do suicídio.

Agora, sinto-me feliz! Estou vivendo novamente! Nas ilusões da vida...encontrei a morte! Na realidade da morte... Descobri a vida!

Zílio.

Fim.



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Calendário Assistência 2017

TENDA ESPÍRITA MAMÃE OXUM

CALENDÁRIO ASSISTÊNCIA - 2017.

C.E. Miguel Arcanjo e Tenda Espirita Mamãe Oxum-

Rua Francisco Framback, 91 E – Cascatinha - Petrópolis - RJ

ABRIL

MAIO

JUNHO

23 – Reabertura do Terreiro às 20h – Saudação à Ogum

02 – sexta-feira – Pretos Velhos

28 - sexta-feira - Exus

05 - sexta-feira – Pretos Velhos

07 – quarta-feira – Estudo da Umbanda

10 - quarta-feira- Estudo da Umbanda

09 – sexta-feira – Saúde

12 - sexta-feira – Saúde

13 – terça-feira – Saudação Aos Exus – Bênção dos Pães – 20h

13 – sábado – Saudação aos Pretos Velhos

16 – sexta-feira – Não tem Gira

17 – quarta-feira – Doutrina - Vovó Catarina

21 – quart-feira – Doutrina – Vovó Catarina

19 – sexta-feira – Caboclos

23 – sexta-feira – Caboclos

24 – quarta-feira –Saudação à Sta. Sara,

e Povo Cigano

28 – quarta-feira – Doutrina

26 – sexta-feira - Malandros

30 – sexta-feira - Exus

JULHO

AGOSTO

SETEMBRO

05 – quarta-feira – Doutrina

02 – quarta-feira – Doutrina

01 – sexta-feira – Pretos Velhos

07 – sexta-feira – Pretos Velhos

04 – sexta-feira – Pretos Velhos

06 – quarta-feira – Doutrina

12 – quarta-feira – Estudo da Umbanda

09 – quarta-feira – Estudo da Umbanda

08 – sexta-feira – Saúde

14 – sexta-feira – Saúde

11 – sexta-feira – Saúde

13 – quarta-feira – Estudo da Umbanda

19 – quarta-feira – Doutrina – Vovó Catarina

16 – quarta-feira – Saudação à Obaluaê e Omolu

15 – sexta-feira – Caboclos

21 – sexta-feira – Caboclos

18 – sexta-feira – Caboclos

20 - quarta-feira – Doutrina – Vovó Catarina

28 – Sexta feira - Exus

23 – quarta-feira – Doutrina – Vovó Catarina

22 – sexta-feira – Não Tem Gira


25 – sexta-feira – Malandros

24 – Domingo – Saudação à Ibeijada - às 17h

30 – quarta-feira - Doutrina

27 – quarta-feira – Distribuição Doces

29 – sexta - Exus

OUTUBRO

NOVEMBRO

DEZEMBRO

.04 – quarta-feira – Doutrina

01 – quarta-feira – Terreiro Fechado

02 - Confraternização

06 – sexta-feira – Pretos Velhos

03 – sexta-feira – Não tem Gira

08 – sexta-feira – Saudação à Oxum e bênção dos Pretos Velhos – 20h

11 – quarta-feira - Não tem Esudo Umb.

08 – quarta-feira –Doutrina

09 – Oferendas na Praia – saída 17h

12 – quinta-feira – Cachoeira / Mata

10 - sexta-feira – Saúde

13 – sexta-feira – Não tem Gira

15 – Feriado – Saudação aos Malandros

18 – quarta-feira – Estudo da Umbanda

17 – sexta-feira – Caboclos

20 – sexta-feira – Caboclos

22 – quarta-feira – Estudo da Umbanda

25 – quarta-feira – Doutrina – Vovó Catarina

24 – sexta-feira – Exus

27 – sexta-feira - Ciganos

29 – quarta-feira – Doutrina – Vovó Catarina

A giras de sextas-feiras têm início às 20 horas. As fichas são distribuídas a partir de 19:45 até as 21:30. As pessoas que chegarem após este horário receberão apenas o passe, sem consulta.

Nossa casa não cobra consultas nem trabalhos, porém aceitamos colaboração de materiais de uso como velas, fósforos, charutos, fumos, etc...

ATENÇÃO: NÃO É PERMITIDO PARA ATENDIMENTO, PESSOAS COM MINI-SAIAS, SHORTS OU BERMUDAS CURTAS, BLUSAS MUITO DECOTADAS OU MINI-BLUSAS, CAMISETAS TIPO MACHÃO.

A CARIDADE NÃO SERÁ NEGADA, PORÉM RESPEITEM O TEMPLO RELIGIOSO.

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