domingo, fevereiro 10, 2013

MARQUEZ DE SADE, SEXO: UMA VISITA A CIDADE PERVERTIDA




Em tempos de Carnaval um leitura muita Oportuna

Agradecimentos a Carlos Eduardo Cenerelli  pela autoria do estudo.



O leitor certamente ficará impressionado com seu conteúdo revelador, que nos apresenta a triste realidade causada pelos desatinos humanos no que se refere ao sagrado instituto do sexo.
Também ficará encantado com os imbatíveis recursos do verdadeiro amor para o resgate e iluminação de Espíritos temporariamente voltados para o mal.

  
O Autor espiritual analisa temas atuais como o desequilíbrio moral e sexual da pedofilia, a sensualidade perversa e a luxúria, a parasitose obsessiva, a influência negativa dos programas de televisão no comportamento de crianças e adolescentes e a pornografia, o poder da oração e do trabalho na transformação moral do ser humano, entre outros assuntos de interesse.

   
O marquês de Sade, Rosa Keller, padre Mauro, Madame X, irmão Anacleto, madre Clara de Jesus, Bezerra de Menezes e o médium Ricardo são alguns dos inesquecíveis personagens desta obra.



Excerto extraídos de:

SEXO E OBSESSÃO
DIVALDO PEREIRA FRANCO
PELO ESPÍRITO MANOEL PHILOMENO DE MIRANDA

A COMUNIDADE DA PERVERSÃO MORAL

Embora não pudéssemos ver Mauro e o seu adversário que seguiam para ignota região, o irmão Anacleto conduziu-nos com segurança para o perímetro fora da cidade, em vasta área pantanosa e sombria, que certamente conhecia, e de onde recendiam odores pútridos e uma gritaria infrene enchia a noite com blasfêmias, expressões chulas e sórdidas, gargalhadas estentóricas, movimentação agitada...

O cuidadoso Guia advertiu-nos que nos estávamos adentrando em uma Comunidade totalmente dedicada à perversão sexual, dirigida por implacáveis sicários da Humanidade, que ali reuniam o deboche à degradação, o cinismo à rudeza do trato, onde encontravam inspiração muitos indivíduos reencarnados e dali procedentes na área da mórbida comunicação social, da literatura doentia e da arte escabrosa para os seus espetáculos de hediondez e de degeneração moral.


  
Reduto imenso, criado pelas emanações morbíficas das próprias criaturas da Terra, que para lá seguiam por imantação magnética opcional, quando parcialmente desprendidas pelo sono físico, constituía um sorvedouro de paixões primárias que, no passado, destruíram culturas e civilizações, qual está acontecendo no presente com grande parte da nossa sociedade.



Quando irrompem o deboche e a insensatez, o desvario do sexo e dos compromissos morais nos grupamentos sociais, a ética, a cultura e a civilização tombam no desalinho, avançando para o descalabro e a servidão.
Tem sido assim através dos tempos e, por enquanto, ainda parece que se demorará por algum tempo, até quando o ser humano se resolva por absorver os compromissos elevados e os deveres dignificadores da Vida na pauta das suas existências. A consciência de si mesmo, a responsabilidade perante o seu próximo e a mãe Natureza, nunca devem sair da linha da conduta humana, pois que nisso residem as aspirações máximas do Espírito para a conquista da beleza e da plenitude.




Torna-se-me muito difícil descrever o local e o ambiente de festiva degradação com as suas personagens, participantes que, exaltados, formavam a grande massa deambulante e movimentada em todos os lados.
A tonalidade avermelhada da iluminação, que fazia recordar os archotes fumegantes do passado, colocados em furnas sombrias para as clarear, produzia um aspecto terrificante no ambiente que esfervilhava de Espíritos de ambos os lados da vida em infrene orgia de alucinados.
Podia-se perceber que Espíritos vitimados por graves alterações e mutilações no perispírito misturavam-se à malta desenfreada na exaltação do sexo e das suas mais sórdidas expressões.


Figuras estranhas, com aspecto semelhante aos antigos seres mitológicos do panteão greco-romano, confundiam-se com muitos outros indivíduos extravagantes em complexas simbioses de vampirismo, carregando-se uns aos outros, acompanhando freneticamente um desfile de carros alegóricos, que faziam recordar os carnavais da Terra, porém apresentando formatos de órgãos sexuais disformes e chocantes, exibindo cenas de terrível horror, espetáculos de grosseira manifestação da libido, nos quais se mesclavam apresentações de conúbios sexuais entre animais e seres humanos deformados sob o aplauso descontrolado da massa desnorteada.

Decorando os peculiares veículos, homens e Mulheres se apresentavam com aspecto de cortesãos que ficaram célebres pela baixeza de caráter, exibindo-se de maneira servil e provocando galhofas de uns e desejos de outros em uma terrível mescla de animalidade soez.
Aquele circo de hediondez apresentava em cada momento novos e agressivos quadros, enquanto se exibiam sessões de sexo grupai ao som de música estridente e desconcertante, que mais açulava os apetites insaciáveis dos comensais da loucura.
O antro asqueroso dava-me a idéia de ser o mundo inspirador de alguns espetáculos da Terra, que ainda não atingiram aquele nível de vileza, mas que dele se vêm aproximando, especialmente durante a apresentação de alguns dos turbulentos e torpes desfiles de Carnaval.
Sim, era naquela Região que se inspiravam muitos multiplicadores de opinião, que ainda insistem na liberação total dos costumes vis, como se já não bastassem o sexo explícito e vulgar, a violência absurda, a agressividade sem limites, a luxúria desmedida, o cinismo odiento, o furto desbragado, o desrespeito a tudo quanto constitui a dignidade humana, descendo a níveis já insuportáveis...
De quando em quando, aparentando a postura de guardadores da Comunidade horripilante, verdadeiros espectros humanos semi-hebetados, conduzindo mastins de grande porte, vigiavam a população, contra a qual atiçavam os ferozes animais.
Telepaticamente o nobre Mentor advertiu-nos para que mantivéssemos cuidados especiais com o pensamento elevado ao Supremo Amor, sem crítica ou observações descaridosas em relação ao que víamos, a fim de não sermos surpreendidos por esses vigias terrificantes.
Num dos quadros dantescos, pudemos defrontar diversos Espíritos reencarnados, que seguiam jugulados aos seus algozes, presos a coleiras como se fossem felinos esfaimados, babando ante o espetáculo que lhes aguçava os instintos grosseiros.
Entre outros, encontrava-se Mauro com o seu sicário, que dele escarnecia e o amedrontava, enquanto, debatendo-se, para liberar-se da retenção e atirar-se no vulcão de asquerosa sensualidade, urrava em deplorável aspecto.
Observamos que crianças despidas em atitudes obscenas decoravam o carro exótico, gritando e movimentando-se sensualmente, inspirando mais compaixão do que outro qualquer sentimento. Acurando, porém, a visão, surpreendemo-nos, ao constatar que se tratava de anões cínicos, apresentando-se como criaturas infantis, assim despertando os viciados em pedofilia a terem mais acicatados os seus impulsos grosseiros.
A bacante, com as suas aberrações, alongou-se, na sucessão das horas, até quando os primeiros raios do amanhecer penetraram a névoa densa, fazendo diminuir o desfile horrendo e a movimentação foi desaparecendo até ficar o ambiente, com a sua pesada psicosfera pestífera, quase vazio, exceção feita aos vigilantes e seus animais em contínua atividade.
A esdrúxula sociedade ali residente seguiu no rumo das suas furnas e mansardas, a fim de continuar na exorbitância dos sentidos torpes, terminado o desfile que se repetia todas as noites...
O irmão Anacleto convidou-nos mentalmente a segui-lo, afastando-nos tão discretamente quanto nos adentráramos no dédalo infernal, aturdidos e algo asfixiados, até nos acercarmos de formosa praia que se dourava à luz solar e recebia os primeiros raios do Astro-rei como bênção de luz após a noite ensombrada no reduto em que estivéramos.
O odor do haloplancto que vinha do mar renovava-nos, tanto quanto oprana da Natureza em bênçãos de vitalização restaurava-nos as forças momentaneamente alquebradas pelos fluidos morbosos da Comunidade de perversão.
Sem que enunciássemos alguma interrogação, embora o grande número delas que bailavam na mente, o Mentor gentil, utilizando-se da beleza natural do dia em começo, elucidou-nos:
- O recinto infeliz onde estivemos é mantido e dirigido por alguns verdugos da Humanidade, que se nutrem dos pensamentos perversos e lúbricos dos seres humanos, que sustentam, dessa forma, a estranha coletividade que ali se homizia e que, longe de qualquer ambição idealista ou espiritualizante, reencarna-se no mundo físico trazendo as imagens das experiências vivenciadas, procurando materializá-las posteriormente entre as demais criaturas.


"Muitos desses Espíritos, ora no corpo físico, são encontrados no mundo físico realizando espetáculos chocantes, vivendo em verdadeiras tribos de promiscuidade primitiva, vestindo-se e assumindo posturas caricatas e ridículas, de que se não conseguem libertar facilmente. Tornam-se, assim, representantes do curioso país espiritual de onde procedem e, telementalizados pelos que lá ficaram, fazem-se verdadeiros propagandistas da orgia despudorada, tentando arrebanhar mais vítimas para a bacanal da extravagância."
Após uma breve reflexão, deu prosseguimento:
- Não são poucos os indivíduos que sentem a atração para o mal, para o vício, para as tendências ancestrais e permanecem receosos, vivendo o claro-escuro da decisão a tomar. Subitamente, porém, enveredam pelos escusos caminhos da morbidez e do escândalo, assumindo comportamentos que envilecem em atitude de desrespeito aos valores morais e sociais vigentes, logo transformando-se em líderes e modelos singulares.
"Invariavelmente são arrebanhados por esses representantes perversos que lhes influenciam a conduta, demonstrando-lhes a necessidade de serem assumidos exteriormente os conflitos e torpezas interiores, a fim de experienciarem a liberdade e o direito de viver conforme lhes apraz.
Demonstram uma alegria que estão longe de possuir, um cinismo que, em verdade, é a máscara que esconde as aflições quase insuportáveis que os transtornam, porém, insensatamente, vinculando-se a esses campeões do desequilíbrio, tombam-lhes nas redes bem urdidas do prazer, não conseguindo desvincular-se deles com facilidade. Somente através das dores excruciantes, das enfermidades dilaceradoras, das angústias morais que os assaltam é que, encontrando orientação e compaixão, liberam-se das amarras fortes do mal em predomínio. A grande maioria, porém, desencarna durante esse comportamento doentio e quase todos são arrastados para o sórdido campo de luxúria, sofrendo por decênios e mesmo séculos até o momento em que buscam a renovação e são socorridos por especialistas em libertação, que periodicamente visitam esses sítios de horror e de sofrimento irracional."
Novamente silenciou, e, tomado de imensa ternura acompanhada de compaixão, deu prosseguimento:
- A mente é sempre a construtora da vida, oferecendo a energia com a qual são condensados os anseios e as necessidades de todas as criaturas.
"O sexo, por sua vez, porque carregado de sensações e de emoções, quando vilipendiado e exercido com ignorância das suas sagradas funções, transforma-se em geratriz de tormentos que dão curso a outros vícios e alucinações, empurrando
as suas vítimas para as drogas, o álcool, o tabaco, a mentira, a traição, a infâmia e todo um séquito de misérias morais que entorpecem os sentimentos e obnubilam a razão. Enquanto não houver um programa educativo baseado nas nobres finalidades da existência humana, cujo objetivo essencial é o progresso intelecto-moral e não a utilização do corpo para o prazer e a leviandade, permanecerão equivocados os valores éticos, sendo utilizados pelo egoísmo para o gozo e a insensatez.


"Vive-se, na Terra da atualidade, a exorbitância da lubricidade, da pornografia, da exibição das formas físicas direcionadas para o comércio da lascívia e da exploração.

"A morte, porém, que a ninguém poupa, ao desvestir da carne os equivocados, abre-lhes a cortina da realidade, e todos se dão conta do alto significado da vida física e do respeito que merece dos aprendizes da evolução. Por enquanto, somente nos cabem as atitudes de compaixão e de solidariedade, de compreensão e de amor, porque os irmãos anestesiados pelo prazer, inconscientes do que lhes ocorre, aguardam ajuda e orientação fraternal para despertarem para a verdadeira alegria de viver. Nesse empreendimento, incluímos também os companheiros desencarnados que, com eles, se encharcam de sensações doentias.
"Chegará o momento adequado, e todos nos deveremos empenhar por apressá-lo, quando luzir o pensamento de Jesus nas consciências humanas, em que o homem e a mulher compreenderão que o sexo existe para fomentar a vida e procriar, amparado por emoções enobrecedoras do intercâmbio de energias revigorantes, e não para o banquete asselvajado dos instintos e das sensações, desbordando em crimes e destruição da vida. Que possamos contribuir em favor desse momento, edificando-nos no bem e preservando-nos interiormente das ciladas do mal e das tentações perturbadoras."
Calou-se o nobre amigo, deixando-nos a refletir.
O dia luculiano estuava em festival de bênçãos demonstrando a vitória da luz sobre a treva, infundindo-nos confiança e coragem para a luta.





RECOMEÇO DIFÍCIL E PURIFICADOR
A noite avançava com o seu crepe escuro bordado de estrelas lucilantes muito ao longe.
O silêncio invadia a cidade, somente interrompido pelas onomatopéias naturais e a movimentação de alguns transeuntes noctívagos.
A Casa Paroquial estava mergulhada em sombras, quebradas apenas por algumas velas acesas diante de ídolos impassíveis em relação aos sofrimentos humanos.
Como podiam, realmente, aquelas estátuas trabalhadas com beleza e quase perfeição entender o drama e a agitação dos homens inquietos e aturdidos no báratro existencial? Fossem representações legítimas daqueles que se houveram dedicado ao Bem e ao culto do dever, quando na Terra, com o único objetivo de estimularem a mente a direcionar-se-lhes, tornava-se exequível. No entanto, o culto àquelas imagens sobrepunha-se à vinculação com as pessoas desencarnadas que pareciam representar, permanecendo inútil.
Mauro encontrava-se alquebrado. Parecia haver envelhecido em poucas horas, após a confissão e o sincero arrependimento que o dominava. Embora estivesse em atitude de angústia, buscando Deus com o pensamento, sentia-se confrangido e envergonhado sob o trucidar da culpa.
Repassava pela memória os acontecimentos da infância e a figura do genitor se destacava no caleidoscópio das recordações. Apresentava-se hediondo e infernal, debochado e insensível ante a aflição do filho, que submetia à selvageria sem qualquer respeito pelo ser humano ou compaixão pelo rebento da própria carne.
À medida que aprofundava a mente nas evocações perturbadoras mais se afligia, não podendo dominar o caudal de lágrimas que lhe escorriam pelas faces ardentes, quase em febre de horror por si mesmo.
Vimos, então, acercar-se-lhe um indigitado perseguidor que, se utilizando da angústia que dominava o sacerdote, começou a transmitir-lhe telepaticamente idéias de fuga do corpo físico.
O irmão Anacleto, sempre vigilante, solicitou-nos que nos concentrássemos no chakra cerebral do paciente e, ao fazê-lo, pude captar a indução pertinaz e contínua:
- A solução para tal crime é o suicídio, porta aberta para a liberdade - pensava o sofredor telementalizado pelo ignorado inimigo oculto.
Como enfrentar a vergonha, a humilhação, o opróbrio geral? E se a massa humana, sempre sedenta de sangue, em tomando conhecimento da hediondez resolvesse fazer justiça com as próprias mãos? Nunca faltaria quem desse o primeiro grito em favor do linchamento, e logo as feras se atirariam furiosas contra a vítima que seria destroçada sem qualquer piedade. Só o suicídio poderia resolver-lhe o drama perverso.
Fui tomado de espanto ante a habilidade do indigitado inimigo. Ele não se permitia trair, parecendo ser alguém que estivesse interessado na destruição do adversário, inspirando-lhe de tal forma a idéia da morte como se lhe nascesse no íntimo atribulado.
Fixando-o, transmitia-lhe a idéia da fuga como solução, fazendo crer tratar-se de uma auto-reflexão e nunca de uma auto-sugestão.
Mediante esse comportamento, fazia o enfermo supor que a atitude desejada era lógica e, portanto, credível de aceitação.
Mauro recordou-se de uma jovem que lhe trouxera, através da confissão, a narrativa do desespero em que se asfixiava ante a gravidez inesperada de que se encontrava objeto. Repudiada pelo amante que lhe abusara da confiança, e sabendo que a família jamais lhe entenderia a situação, tanto quanto receando os preconceitos sociais então vigentes, recorrera-lhe ao auxílio, por não encontrar outro caminho exceto o do autocídio.
Ante o próprio conflito, que já o atormentava na ocasião, tentou dissuadi-la do gesto tresloucado sem muita convicção, sentindo-se fracassado, porque, logo depois, na noite imediata, a infeliz recorrera à morte mediante o gás que abrira e deixara-se anestesiar no quarto de banho, onde antes tivera o cuidado de vedar todas as saídas e entradas de oxigênio.
Reflexionando e, ao mesmo tempo, com a mente invadida pelo algoz, concluía, sem poder perceber que estava sendo vítima de uma consciência entenebrecida:
- O suicídio através do gás é repousante, sem dor e sem tormento, facultando ao desditoso adormecer para adentrar-se no país do nada ou no inferno sem retorno.
Essa reflexão sacudiu-o, e ele recordou-se da fé religiosa que abraçava, dando-se conta de que não a tinha em alta consideração, como o demonstravam sua conduta e seu pensamento inseguro.
Estimulando-o à ação devastadora, o inimigo dá-lhe assenhorando-se do pensamento, com o propósito de tomar-lhe o centro dos movimentos e acioná-lo para que executasse o plano covarde de fuga, quando o Mentor, percebendo a aflição da genitora de Mauro, em pranto e em prece, acercou-se-lhe e esclareceu:
- Nesta emergência, vemos apenas uma solução de imediato, que é a querida amiga acercar-se do filho, apresentar-se-lhe, e despertá-lo para a realidade.
De imediato, concitou-nos, a mim, a Dilermando e a dona Martina, que nos concentrássemos firmemente, oferecendo-lhe energias próprias para o cometimento, enquanto sugeria-lhe que focasse o campo mental do filho e chamasse-o nominalmente, várias vezes, com o que ela anuiu, confiante.
- Mauro, meu filho - chamou com energia a mãezinha desencarnada- desperte!
Mauro, ninguém morre. Recorde-se, neste momento, de Jesus.
A nova onda mental penetrou o cérebro do aturdido sacerdote, que experimentou um choque vibratório por todo o corpo, percorrendo-o pelo dorso espinal e fazendo-o despertar do letargo doentio.
Ante a força poderosa do pensamento de amor aureolado pelas vibrações defluentes da prece, o adversário desencarnado experimentou a forte reação nervosa do paciente que lhe desconectou o plug fixado à mente que lhe ia cedendo campo ao convite desnaturado.
Só então percebeu-nos a todos que o contemplávamos com expressão de misericórdia e de compaixão.
Experimentando um estado superior alterado de consciência, Mauro pareceu escutar o apelo materno e, inesperadamente, pôde detectá-la à sua frente com os braços distendidos em atitude de quem desejava afagá-lo, tombando de joelhos e exclamando: - Mamãe, é você ou algum anjo do Senhor que veio em meu socorro?
- Sou a tua mãezinha de sempre, que retorna como anteriormente, a fim de ajudar-te neste instante grave da tua existência. O Senhor deseja a morte do pecado, nunca a do pecador. Não há mal para o qual não exista remédio, nem ação nefanda que possa ser considerada irrecuperável. Pára e pensa! O teu é um erro hediondo, mas o amor do Pai é infinito, e pode albergar todos os crimes para diluí-los, ajudando os criminosos a se recuperarem a fim de auxiliarem as vítimas que infelicitaram.
O rapaz estava confuso, num misto de alegria e de sofrimento, convulsionado pelo pranto e ardendo em febre de desespero.
Dando prosseguimento, ela se fez mais enfática:
- Este é o teu momento de redenção, meu filho. Foi longa a marcha degradante que te permitiste, e que agora te exige uma recuperação demorada e de sublimação.
Não te recuses ao dever de sorver a taça na qual apenas depositaste fel, vinagre e mirra. É o teu momento de expiar, nunca de fugir para lugar nenhum, porquanto o suicídio somente piorará o quadro das tuas aflições.
Aproveita este breve instante e recompõe-te mentalmente, preparando-te para experimentares as mais cruas dores e rudes humilhações, afinal decorrentes dos teus próprios atos, mas que te oferecerão os meios para ajudares a todos quantos feriste os sentimentos de pureza e de dignidade, conferindo-te meios para a ascensão que te aguarda. Entrega-te a Jesus e nEle confia. Nunca desfaleças e crê no divino auxílio. Até breve, meu filho!
Mauro desejou prolongar aquele colóquio quase sublime, mas não teve tempo, porque a figura veneranda começou a desvanecer-se, deixando a suave sensação de paz no coração dilacerado do jovem, enquanto dúlcidas vibrações de paz invadiam o recinto como resposta dos Céus às aflições e preces da Terra.
Não suportando a cena de ternura, o réprobo e perseguidor sandeu retirou-se blasfemando, furibundo.
Mauro deitou-se para melhor introjetar tudo quanto lhe acabara de ocorrer e fixá-lo para sempre na memória e no coração.
Um lânguido torpor foi-lhe tomando todo o corpo e, poucos minutos após, dormia tranqüilamente.
A mãezinha feliz, continuou a velá-lo, enquanto, convidados pelo distinto Anacleto, retornamos ao Núcleo onde nos hospedávamos.
Nesse comenos, quando seguíamos na direção da Casa de amor e luz, utilizando-me da proverbial bondade do amigo, interroguei-o:
- De quem se tratava a Entidade que induzia Mauro ao suicídio? Isto porque, em nossa convivência naqueles poucos dias não tivera oportunidade de conhecê-la?
Não se fazendo esperar, o amigo generoso esclareceu:
"Conforme nos recordamos, Madame X celebrizou-se no período napoleônico pela insensatez e cobiça, utilizando-se da sua mansão-bordel para as extravagâncias, nas quais infelicitou muitas pessoas.
O infeliz, que ora a induz ao suicídio, embora se encontre na roupagem carnal de Mauro, é mais um daqueles que foram dilapidados nos sentimentos e trucidados na razão, face ao desbordar de paixões que a infeliz proxeneta de luxo se permitia na sua corte de depravados, na qual misturava favores sexuais com interesses políticos, tornando-se agente de conciliábulos perversos, que mutilaram muitas pessoas...
Vitimado, naquele período, pela astúcia de um inimigo junto à política vigente, Madame intermediou a sua queda, conduzindo-o a uma armadilha muito bem urdida, na qual perdeu a existência corporal, além de ter enlameada a memória."
Silenciando rapidamente, concluiu:
- Quando as criaturas derem-se conta da gravidade do crime e das suas conseqüências, pensarão sempre com muito cuidado antes de assumir ou criar situações perversas e infelicitadoras para as outras, que sempre redundarão em desdita para si mesmas.
Naquele momento chegamos à Instituição, que me chamou a atenção para o número de Espíritos que ali se encontravam em verdadeira azáfama.
Alguns acorriam ao salão doutrinário, onde, logo mais, deveria ser realizada uma conferência por abnegado espiritista desencarnado, que realizara na Terra expressiva tarefa de divulgação dos postulados exarados na Codificação.
O número de encarnados em desdobramento parcial pelo sono, que ali se encontravam, era expressivo, os quais misturavam-se aos libertados do corpo através da morte física. Muitos desencarnados buscavam os setores de socorro aos que deambulavam na roupagem carnal, e os seus familiares vinham em busca de auxílio para os mesmos antes que se comprometessem irreversivelmente. Outros mais, caminhantes do carreiro orgânico, eram enfermos que estiveram no Centro Médico da Entidade durante o dia e, após orientados pelos esculápios, que também lhes falaram das interferências espirituais que geram distúrbios de vária ordem, procuravam atendimento específico.
Diversos outros conduziam seus filhos que freqüentavam as Escolas da Casa e necessitavam de terapias espirituais, a fim de terem diminuídos os seus sofrimentos, melhorando-lhes a capacidade de entendimento e compreensão das aulas que lhes eram ministradas. Espíritos com os sinais e características dos desgastes orgânicos apresentavam-se ansiosos, necessitados de orientação e apoio, de forma que conseguissem concluir a reencarnação com dignidade e proveito... Enfim, toda uma colmeia de ação ordenada prosseguia em incomum movimentação.
Ao lado desses, grupos de desencarnados em sofrimento eram convidados e conduzidos aos diferentes setores de triagem para melhor atendimento, ao tempo em que, perturbadores e viciosos, embora sem dar-se conta, também eram encaminhados aos núcleos onde poderiam ser recebidos e ajudados.
Tudo respirava o oxigênio do amor e da vida, enquanto o silêncio e a noite amortalhavam no sono físico os homens e mulheres recolhidos aos lares.
Não obstante a movimentação enriquecedora, caracterizada pela ação do bem e da caridade, não nos detivemos em qualquer daqueles setores onde se encontravam os necessitados. O irmão Anacleto seguiu diretamente à sala mediúnica, já nossa conhecida, na qual deveria desenvolver-se o estudo para uma ação meritória que teria lugar posteriormente. Assim, acompanhamos o amigo e adentramo-nos pelo recinto dedicado ao intercâmbio com o mundo espiritual, que se encontrava igualmente repleto. Não era uma reunião como as anteriores, que tinham por objeto atender aos desvarios dos desencarnados em comunicações mediúnicas. Ali se encontravam alguns Espíritos nobres acompanhados de assessores, que deveriam discutir uma questão de importância que se iria delinear. À chegada do Benfeitor todos se rejubilaram. Pude então detectar a superioridade espiritual do mesmo, que se apagara para estar conosco e atender ao apelo de dona Martina, em favor do filho desorientado e enfermo.
Após as saudações e apresentações, conforme sempre também acontece na sociedade terrestre, o recém-chegado expôs:
- Esta reunião tem por objetivo o estudo de um plano delicado, em benefício de um Espírito que, há várias décadas, experimenta o horror na Cidade das paixões servis, que auxiliara a erguer antes de mergulhar no corpo e para onde retornou após a turbulenta desencarnação. Pelas circunstâncias em torno da gravidade do cometimento, todos nos deveremos ungir de sentimentos de compaixão e de misericórdia para com os sicários que com ele convivem, de modo que nos recordemos da imprescindibilidade da oração e da vigilância, tendo em mente que todos somos Espíritos imperfeitos em processo lento de renovação e de crescimento para Deus.
Silenciou por alguns breves segundos, e logo prosseguiu:
- Pela magnitude do labor, deveremos formar um só bloco de pensamento, de forma que nos seja possível atravessar as barreiras defensivas da comunidade de perversão, para ajudar sem censura, ali estagiando sem contaminarmo-nos, realizando o mister para o qual a visitaremos com os propósitos elevados de bem servir.
Fazendo uma pausa oportuna, a fim de ampliar o campo das explicações, referiu-se:
- A História conta-nos complexos e variados comportamentos atribuídos ao marquês de Sade, de dolorosa e perturbadora memória. Considerado por uns como sendo grande novelista, por outros é tido como um atormentado portador de distúrbios mentais e emocionais, especialmente no que diz respeito à conduta sexual, que passou à posteridade como sendo praticante de tormentosas aberrações no campo da sodomia e de outras criadas pelo seu desvario.

A grande verdade é que descendia de uma família das mais nobres e distintas da Provença, nascido em Paris, havendo, na juventude, ingressado na cavalaria aos catorze anos, de onde saiu na condição de segundo tenente, fazendo parte do regimento do rei.
Logo após, durante a guerra dos Sete Anos, na Alemanha, alcançou o posto de capitão. Em 1763, havendo regressado à França, seu país natal, casou-se com uma das filhas do presidente Montreuil, havendo sido, de alguma forma, enganado, porque amava à outra filha, a mais jovem, que a família encaminhara ao convento, causando ao capitão um grande desgosto e arruinando-lhe a vida interior.
Posteriormente, ele deu início aos tremendos atos de desregramento moral, através de um escândalo inicial que o envolveu com uma jovem, que fora barbaramente maltratada, o que impôs ao marquês o seu encarceramento no castelo de Saumur.
O bondoso e sábio amigo silenciou por um pouco, como se desejasse sintetizar a história tormentosa do infelizmente célebre marquês, logo dando prosseguimento:
"Nasceu como Donato Afonso Francisco, herdeiro dos títulos de conde e de marquês. Depois do inditoso acontecimento foi transferido para o cárcere em Lião, ali ficando por breves seis semanas, logo posto em liberdade, o que lhe facultou nova prática hedionda em Marselha, crime esse que lhe valeu a pena de morte
pelo Parlamento de Aix, tendo-se em vista a barbaridade com que o mesmo fora praticado. Liberado da condenação, hábil, como era, nas artimanhas de que se utilizava, conseguiu seduzir a cunhada, retirando-a do convento, e fugindo com ela para a Itália. Os bons fados, porém, não lhe foram favoráveis, porque, logo depois, a mulher que parecia amada desencarnou, e ele tentou voltar à França, havendo sido novamente preso, e fugindo após, de forma que pôde dar prosseguimento à sua existência insensata e degenerada. Foi novamente preso e liberado, para, por fim, ser encarcerado em Paris e encaminhado à Bastilha.
Aqueles eram, porém, dias pré-revolucionários, e ele, utilizando-se de maquinações bem elaboradas, que o caracterizavam, improvisou um tubo, através do qual conseguia gritar impropérios e narrar supostas perseguições como maus tratos de que seriam vítimas os encarcerados no velho castelo. Posteriormente, passou a escrever em folhas de papel que atirava pelas grades, narrando supostas atrocidades que sofria com outros prisioneiros, havendo sido considerado, de alguma forma, um inspirador ou estimulador da Revolução de 1789, especialmente havendo contribuído em favor da destruição da hedionda prisão. Anteriormente, no entanto, houvera sido internado no asilo para alienados mentais de Charrenton, de onde foi liberado graças a um decreto da Assembléia Constituinte.
Novamente o nobre Espírito silenciou. Podíamos notar-lhe a emoção, feita de compaixão e de misericórdia, em favor da desnaturada personagem, para logo concluir:
- A esposa abandonou-o, não mais o suportando, embora também a vida desregrada que se permitira, resolvendo-se recolher a um convento, a fim de expiar a conduta reprochável. Sentindo-se livre do cárcere e do matrimônio, o marquês, já idoso, teria levado o restante da existência de maneira moderada, ainda segundo alguns biógrafos, vivendo pelo próprio trabalho, deixando um imenso legado de obras, principalmente comédias que foram representadas em Paris e em Versailles, licenciosas e autobiográficas das práticas que realizara. Embora expressiva e volumosa a sua literatura não se destaca pela qualidade, mas certamente pela vulgaridade. Desencarnou louco no manicômio de Charrenton, para onde fora levado, após uma longa existência de 74 anos mal aproveitados. Os seus desregramentos deram lugar a uma designação derivada do seu nome pára um tipo de perversão sexual, que passou a ser conhecida como sadismo. 11
RETORNO À CIDADE PERVERTIDA
O Benfeitor encontrava-se algo preocupado. Para aquela reunião fomos convocados nós outro, Dilermando, o médium Ricardo acompanhado pela sua Mentora, o psicoterapeuta espiritual Felipe e mais alguns assessores, formando um grupo de oito desencarnados e dois reencarnados.
Respirava-se uma atmosfera de paz, embora todos pressentíssemos a gravidade do cometimento que se estava delineando.
Guardava vivas na memória as imagens degradantes e sombrias que tivera ocasião de encontrar na cidade da perversão, podendo detectar que nova excursão se fazia necessária, a fim de melhor entender as ocorrências da obsessão em referência às condutas sexuais desregradas.
Convidada a proferir a oração, que deveria assinalar o início das atividades espirituais, a nobre Benfeitora madre Clara de Jesus concentrou-se e, à medida que se interiorizava, transformava-se em um foco de suave claridade azul-violeta com graduações de difícil definição.
A meiga voz adquirira tonalidades musicais penetrantes, e ela exorou:
Amoroso Jesus, Companheiro dos desditados e esquecidos!
Evocando a Tua jornada terrestre, quando desceste ao abismo das misérias humanas, a fim de nos ergueres ao esplendor da Tua morada, também nós, servos imperfeitos da Tua seara, preparando-nos para ascender no Teu rumo, através do mergulho no dédalo das aflições espirituais, vimos suplicar-Te apoio e inspiração.
Dulcifica-nos interiormente os sentimentos, alargando as nossas possibilidades de amor, de modo que auxiliemos sem exigências, participemos das angústias do próximo sem nos entristecermos e, sejam quais forem as circunstâncias em que se encontrem os irmãos do carreiro da agonia, não nos permitamos julgá-los ou censurá-los, compreendendo-os sempre, sem o que estaremos incapacitados para servi-los e socorrê-los.
Nesse tremedal em que se encontram por vontade própria, após o desrespeito às Soberanas Leis da Vida, não vigem a solidariedade nem a misericórdia, antes campeiam as arbitrariedades e as loucuras do desregramento moral e espiritual do ser que perdeu o endereço de si mesmo.
Apieda-Te deles, concedendo-lhes novo recomeço, qual nos conferiste quando nos encontrávamos sem rumo e a Tua voz nos alcançou, convidando-nos a seguir-Te, maneira única existente de nos libertarmos das paixões primitivas.
Reconhecemos as próprias deficiências para o labor que iniciaremos, por isso mesmo suplicamos-Te sejas o nosso Guia e Condutor, para que todos os nossos sejam passos seguros sobre as Tuas pegadas e a nossa se transforme na ação do Bem Infinito, não obstante os nossos limites e as nossas deficiências.
Senhor, aceita-nos a Teu serviço em nome de Nosso Pai!
Quando silenciou, com lágrimas que lhe orvalhavam os olhos, vimos mirífica luz argêntea que, descendo de ignoto ponto, a envolveu, espraiando-se em nossa direção e albergando-nos a todos na sua claridade.
Nesse momento, vimos chegar dois jovens Espíritos, cada um dos quais, conduzindo um mastim de expressivo porte, mas bem amestrados e mansos.
Era a primeira vez que, participando de uma excursão espiritual, a mesma fazia-se integrada por almas de animais desencarnados.
A questão da alma dos animais sempre me interessara, mesmo quando me encontrava na Terra. Afinal, qual o destino reservado aos nossos irmãos da escala zoológica dita inferior, alguns deles revelando uma percepção do instinto tão aguçada, que se expressava na condição de uma inteligência embrionária? Embora as informações fornecidas pelos Espíritos nobres da Codificação em torno do período em que eles permanecem no mundo espiritual, mas não em estado de erraticidade, retornando ao mundo físico quase imediatamente, agora encontrava aqueles mastins que seriam utilizados pelos trabalhadores do Bem, demonstrando que haviam sido selecionados para auxiliar-nos em tarefas relevantes, nas quais poder-nos-iam ser de grande utilidade.
Os jovens, que os conduziam, pareciam excelentes amestradores, que os iniciaram na identificação dos fluidos perniciosos e das vibrações deletérias das regiões espirituais inferiores, porquanto se apresentavam exultantes face à possibilidade de contribuírem em favor do êxito do empreendimento em pauta.
Ainda estava mergulhado nas reflexões em torno dos animais, quando o Benfeitor começou a explicar a finalidade da excursão em delineamento, informando:
- Ante o desbordar das paixões asselvajadas que cultivara na Terra, o marquês de Sade, residente na cidade perversa, comanda uma legião de cultores do sexo em desalinho, no mundo espiritual, que se encarregam de inspirar e preservar as alucinações de homens e mulheres terrestres que lhes caem nas malhas perturbadoras.
"À semelhança de Mauro, o esposo da dama da consulta ao atendente fraterno da Casa enquadra-se como dependente da ação nefasta daquelas Entidades devassas que, em obsidiando alguns incautos, também tombam nas malhas da própria rede de perturbação, experimentando o tormento da insaciabilidade e mais experienciando as necessidades físicas de que já deveriam encontrar-se liberados, e constituem somente impregnação dos vícios no perispírito..."
Fez uma pequena pausa e logo prosseguiu:
- Em nossa Esfera de ação tomamos conhecimento de que um grupo de sequazes do marquês pretende, oportunamente, assaltar esta Instituição, que se constituiu um pouso de renovação que é do vero Cristianismo, influenciando seus membros para tombarem nas urdiduras da sensualidade desavisada, assim interrompendo o ministério de amor e de dignificação que aqui se desenvolve. Conforme recordamos, no plano estabelecido pelo Soberano das Trevas a respeito das quatro torpes verdades (*), os Espíritos do Mal investiriam com todas as suas forças contra os obreiros do Evangelho desvelado pelo Espiritismo, por estarem interferindo nos planos trabalhados em favor das obsessões coletivas. Uma dessas verdades é o uso desarmonizado do sexo, fazendo o ser derrapar na vulgaridade e no desrespeito a si mesmo como ao seu próximo.
* Vide Trilhas da libertação, Cap. X, FEB, (Nota do Autor espiritual.)
Após inúmeras tentativas frustradas, para levarem adiante o sórdido plano, solicitaram a ajuda do marquês e dos seus comparsas, que têm atraído diversos invigilantes para o desastre inevitável.
O sábio e diligente Guia silenciou por um pouco, procurando ajuizar quanto às informações que iria oferecer-nos, a fim de dar continuidade à narração do plano, referindo-se:
- Não têm sido poucos os homens e as mulheres que se reencarnaram nas fileiras da Doutrina Espírita, conduzindo altas responsabilidades em torno da sua divulgação e vivência corretas.
Nada obstante, após alcançarem a notoriedade e mesmo certa respeitabilidade no Movimento, vêm tombando ante as facilidades em favor do uso do sexo irresponsável, comprometendo-se gravemente e gerando perturbação nos companheiros que, aturdidos, constatam que a sua não era uma conduta exemplar, nem autêntica.
"Quando esses serviçais das paixões vis direcionam o pensamento para alguém, e concede-lhe assistência nefasta, a sua insistência é tão grande e pertinaz que são poucos aqueles que conseguem evadir-se do cerco ou superar-lhes a pressão doentia, escravagista.
Inspiram a mentirosa excelência do gozo, dão idéia que a pessoa está perdendo excelentes oportunidades de ser feliz, tendo em vista a predominância do prazer doentio que, afinal, a vida não pode ser de Nada tão a sério que dispense as suas concessões carnais, que o tempo monástico não mais se instalará na Terra, e que estes são dias diferentes. Noutras vezes, auxiliam por inspiração reflexões perturbadoras, procurando diminuir a gravidade dos compromissos sem responsabilidade, a banalização dos relacionamentos apressados e das múltiplas experiências como fonte de vida, etc. em terríveis conciliábulos que, não poucas vezes, resultam exitosos para os seus delineamentos. "
O gentil amigo percorreu a sala com o seu olhar percuciente, e vendo o expressivo número de Espíritos encarnados, desdobrados pelo sono, e desencarnados, buscando amparo e orientação, não se pôde furtar à emoção, prosseguindo:
- Orando sinceramente, os companheiros ergastulados na matéria, sentindo-se perturbados com as caprichosas odisséias da sensualidade e visitados pelos desejos ignóbeis, vêm rogando proteção, buscando a reflexão nas leituras de obras confortadoras, trabalhando na ação da caridade, e como o cerco prossegue, apelam, quase em desespero, pela ajuda, que nunca falta, a fim de seguirem fiéis aos compromissos abraçados com devotamento.
Nesse ínterim, resistindo às influências nefastas que nem sempre lhes encontram guarida na mente ou no sentimento, tornam-se vítimas de companhias encarnadas que se corromperam e se oferecem para o banquete da loucura, alcançando-os com maior facilidade. É-lhes possível resistir às interferências espirituais pelo pensamento, renovando-se e impondo-se idéias edificantes, no entanto, quando perseguidos por pessoas amigas que se transtornam e passam a assediá-los, o problema se lhes faz mais grave.
"Por essas e mais outras razões, iremos tentar remover alguns obstáculos do seu caminho e interferir na planificação odienta que se trama na cidade da perversão contra esses trabalhadores da Era Nova. Todos sabemos que não é fácil o trânsito na esfera carnal, onde já estivemos, entre tropeços nas trevas da ignorância e o ressumar das paixões adormecidas e não superadas."
Novamente fez uma pausa, para logo concluir:
- A fim de ganharmos tempo, deveremos volitar na direção da cidade, acercando-nos dos seus arredores, conforme sabemos, muito bem vigiados por perversos guardas adestrados para capturar visitantes inoportunos. Em qualquer situação, preservemos o equilíbrio e a serenidade, certos do divino auxílio, mantendo a confiança irrestrita em Deus e conscientes dos objetivos que até ali nos conduziram. Da vez anterior, na condição de observadores, não tivemos qualquer dificuldade em adentrar-nos nos seus limites, agora, no entanto, com finalidades de trabalho específico, deveremos manter-nos mais cuidadosos.
Reinando uma verdadeira consciência de paz e de dever, vimos o médium Ricardo acercar-se da sua Benfeitora, que o envolveu em dúlcido olhar de ternura e sorriu, generosa.
Após breve concentração começamos a deslocarnos na direção da meta que nos aguardava.
Pairava uma expectativa quase ansiosa em minha mente e no meu coração.
Quando alcançamos a região pantanosa próxima às cavernas escuras em cuja intimidade se homiziavam os seus infelizes habitantes, um odor pútrido invadiu-nos a pituitária, denunciando o teor vibratório de baixíssimo nível moral de onde procedia, qual ocorrera por ocasião da primeira visita.
Podíamos ouvir o clamor e o estardalhaço que se faziam crescentes, à medida que nos aproximávamos de uma das furnas de entrada.
Para melhor dificultar a identificação dos vigilantes, que conduziam Espíritos metamorfoseados em animais por processos perigosos de hipnose perispiritual infelizes, fizemo-nos cobrir por mantos pesados que alteravam a nossa aparência e com a presença dos mastins, facultando que pensassem tratar-se de retornados de excursão ao planeta de onde traziam novos aficionados para o turbulento espetáculo.
Mantínhamo-nos em silêncio, não havendo despertado a atenção dos guardiães da entrada, tão certos estavam de que ninguém se atreveria a vencer as barreiras delimitadoras da comunidade alucinada.
Respondendo às questões que eram propostas pelos vigilantes de plantão, o nosso Mentor, circunspecto e concentrado, informou que se tratava de um novo grupo recém-convidado para o espetáculo da noite.
Um pandemônio reinava por toda parte.
A sensualidade desbordante tomava conta dos alucinados em transe de loucura. O desfile dos carros alegóricos expressando as organizações genitais deformadas e absurdas, os atos praticados em grupos vulgares e desvairados, inspiravam compaixão, não fosse a náusea que provocavam. Tudo ali fazia recordar os lupanares de baixa categoria e os antros da mais sórdida vulgaridade sexual animalizada.

Estátuas horrendas, decorações absurdas, construções aberrantes, tudo era calcado no sensualismo chocante, ao tempo em que as músicas estridentes faziam-se acompanhar por detrás de conteúdo chulo e palavreado grosseiro, enquanto seres humanos transformados em bestas animalescas serviam de condução a hediondas personagens que as conduziam, utilizando-se de rédea e chicote, seminuas ou vestindo-se primitivamente com o que pareciam couro negro escuro e brilhante, tendo adereços e argolas grosseiras penduradas em várias partes do corpo, incluindo o sexo de aparência descomunal...

Tudo eram referências às mais vis expressões da conduta desregrada do abuso sexual. Grupos desfilavam exibindo espetáculos coletivos de caráter sadomasoquista, em que as aflições que eram infligidas aos seus membros produziam gritos e dilacerações absurdas, mutilações e flagelos entre gargalhadas estentóricas e zombeteiras, como a imaginação mais exagerada não é capaz de conceber.
A execração não tinha limites, e apesar de nunca haver sido impressionável, mesmo quando da breve visita anterior, encontrava-me quase atoleimado ante o que a mente em desalinho é capaz de produzir.
Estávamos parados numa das laterais por onde desfilava o cortejo da luxúria desgovernada.
Representações de seres mitológicos se multiplicavam, sempre com destaque a área da sua perturbação ou representação sexual desconcertante; ridículos imperadores romanos do período da pré-decadência eram imitados com burlescas aparências e debochadas carantonhas; meretrizes famosas e seus amantes infelizes volviam à cena representativa, entre aplausos ensurdecedores, assobios e gritos infernais entronizando bizarros Eros, Baços, Afrodites, Apoios despudorados...
Nesse momento surgiu um cortejo de crianças em atitudes agressivas e grotescas de atos libidinosos estarrecedores.
Apurando, porém, a atenção, pude detectar que se tratava de anões disfarçados, conforme notara anteriormente, a fim de reterem a imaginação dos pedófilos e doentes de outras expressões perturbadoras do sexo aviltado.
Não conseguia compreender toda a hediondez do espetáculo, constatando mais uma vez que, naquela cidade nefasta, muitíssimos líderes das aberrações que se apresentam na Terra iam ali buscar inspiração, em razão de estarem envolvidos com a população residente. Isso, quando não a visitavam com a freqüência indispensável a uma perfeita identificação de conduta, que pretendiam transferir para o planeta.
Recordava-me daqueles que sempre proclamam pela liberdade de expressão, no seu aspecto mais grotesco e selvagem, exigindo leis que descriminem usos e comportamentos vis, em nome da falsa cultura e da liberalidade que raia sempre pelo despropósito e pelo abuso.

Alguns desses companheiros terrestres, que se fizeram famosos pelos conjuntos e bandas metálicas com personificações diabólicas, ali também se encontravam no desfile, exibindo as suas mazelas e perversões com que se compraziam, a fim de despertarem no corpo físico mais tarde sob indisfarçável mal-estar, que pensavam minorar com doses de álcool e de outras drogas químicas de que se fizeram escravos...
Era aquela, sim, uma sociedade que emergia do passado grosseiro, solicitando cidadania nos tempos modernos...
Estava mergulhado nessas reflexões, quando escutei nos refolhos da alma a voz gentil do Benfeitor, chamando-me a atenção:
- Não nos encontramos aqui para avaliar ou julgar o comportamento dos nossos irmãos doentes, mas sim com o objetivo de ajudá-los. Preservemos a sincera compaixão fraternal, aprendendo a avaliar tudo quanto não mais nos cumpre vivenciar, superadas essas manifestações primárias, nas quais um dia também nós, de certo modo, estagiamos antes de alcançar o momento atual. Oremos e vigiemos!
A advertência oportuna chegara abençoada, despertando-me para o dever da solidariedade e não da censura ou da observação malsã que me permitia, desde que somos todos filhos de Deus, em cujo amor nos movimentamos e para cujo seio nos dirigimos. Todos teremos a nossa ocasião de ascender aos páramos da luz, por mais nos demoremos nas trevas da ignorância e da perversidade.
Mudando de atitude mental, de imediato as cenas escabrosas, que continuaram da mesma forma, passaram a ter um outro sentido e significado ante a reflexão de que Deus as permitia, porque o ser humano as elaborava em favor de si mesmo, a fim de aprender a purificar-se, saindo do pântano a que se arrojara livremente na direção da paisagem de luz.
Automaticamente deixei-me embalar pela musicalidade íntima da oração de misericórdia e de ternura em favor dos Espíritos confundidos em si mesmos, necessitados todos de bondade e compreensão, experimentando outro estado interior de paz e de compaixão

ESTRANHO ENCONTRO
Ignorava completamente como seria a atividade naquele báratro e como poderíamos acercar-nos do marquês de Sade.
O Mentor, porém, houvera elaborado um plano que estava levando adiante com muito cuidado e discernimento.
À medida que se sucedia o desfile dos carros alegóricos e os grupos que os secundavam foram diminuindo, lentamente a região foi tomada pelo tumulto dos indivíduos entregues à lascívia em pequenos círculos afins, formando pares ou esquisitas parcerias múltiplas.
Nesse momento, atendendo a um apelo mental do Instrutor, fomos embarafustando-nos pela multidão, rumando para extravagante edifício em que se transformara uma gruta sombria com movimentação agitada e confusa.
À entrada postavam-se dois hediondos serviçais trajados de maneira inusual, como se desejando reviver o passado da aristocracia francesa pré-napoleônica, quais lacaios maltrapilhos e imundos, que seguravam cães de aparência feroz, e que, melhormente observados, eram seres humanos que haviam sofrido a zoantropia hipnótica.
De aspectos ferozes, avançavam sob os acicates dos seus condutores contra todos aqueles que se adentravam ou saíam, o que não ocorreu conosco, quando se depararam com os dois mastins que eram levados adiante do grupo pelos jovens silenciosos e circunspectos.
Embora diferíssemos dos transeuntes grotescos e de carantonha asselvajada, não chamávamos muito a atenção face aos mantos pesados que nos caíam da cabeça  cobrindo-nos quase literalmente.
Observei que, à medida que permanecíamos no recinto mefítico da estranha cidade, a nossa indumentária desgastava-se, os mantos romperam-se numa apresentação grosseira de trajes usados por beduínos após incessantes travessias do deserto...
Embora não falássemos durante o trajeto, pude ouvir informações mentais que procediam do Mentor, esclarecendo que a substância em que os nossos trajes foram trabalhados era própria para aquele ambiente, a fim de assimilar as características locais, de forma que não despertássemos a curiosidade, caso a nossa fosse uma apresentação diferenciada dos demais residentes e visitantes do tremedal.
A furna era iluminada por archotes fumegantes presos às paredes, que ardiam com uma coloração amarelo-avermelhada, de certo modo apavorante pela tonalidade agressiva, e o odor pútrido, misturado ao fumo e a outras emanações, era quase insuportável.
Após avançarmos pelo que seria um corredor estreito e escorregadiço, chegamos a uma ampla sala onde um Espírito de aspecto diabólico, sentado em um arremedo de trono esdrúxulo, banqueteava-se com Entidades lascivas e debochadas em intérminas gargalhadas, enquanto gritos selvagens cortavam o ar, misturando-se a sons estranhos e grotescos que constituíam o espetáculo agradável ao infeliz governante daquela área.
Detivemo-nos a regular distância, a fim de observarmos os acontecimentos e podermos conhecer de perto o infelizmente célebre criador de aberrações, já anteriormente praticadas pelo ser humano, porém por ele ampliadas até ao absurdo durante os seus tormentosos e perversos dias já referidos, quando da sua última existência terrena.
Faunos e representações do deus Pan misturavam-se aos famigerados membros da estranha corte, ao tempo em que mulheres, imitando vestais e sacerdotisas, monstruosas umas e em atitudes torpes outras, entregavam-se a inimagináveis movimentos de lascívia grotesca como se o único objetivo existencial fosse o infindável intercurso da sensualidade depravada.
Vez que outra, gemidos e exclamações lancinantes explodiam no recinto, provocando gargalhadas e sustos no grupo estranho, que não cessava de retorcer-se ao som desconcertante de guitarras e tambores eletrizantes.
Podia-se também perceber expressões de exaustão em muitos rostos, enquanto não poucos apresentavam sinais inconfundíveis de tédio, que os induzia a mais excruciantes comportamentos aterradores.
Um Inferno de falsos prazeres, que se convertiam em insuportável sofrimento disfarçado com o riso da loucura e a falta de discernimento de qualquer tipo de valores e de aspirações.
Nenhuma imaginação exaltada seria capaz de urdir algo semelhante, demonstrando o poder da mente em desalinho, quando perde os parâmetros do equilíbrio e as diretrizes da sensatez.
Os mastins, de quando em quando, asfixiados pela psicosfera pastosa e quase irrespirável, reagiam agitando-se, logo sendo controlados pelos seus amestradores.
A um sinal, quase imperceptível do Mentor, acercamo-nos do trono ridículo, e num vaivém do grupo grotesco em sua volta, que nos permitiu maior proximidade com o Chefe, dirigiu-se diretamente ao suserano, informando:
- Tenho, para o senhor marquês, uma solicitação firmada por certa personagem de nome Rosa Keller, sua conhecida...
Ao escutar o nome, que lhe ressoou na câmara acústica da alma, o indigitado, como se fulminado por um raio, levantou-se, e gritou histérico:
- Quem é você e que vem fazer aqui?
Ato contínuo, blasfemando, chamou os guardas, aos quais deu ordens expressas:
- Como entraram aqui esses estranhos? Prendam-nos.
Sem demonstrar qualquer receio, o irmão Anacleto prosseguiu:
- Desde que não lhe interessa o requerimento de que somos portadores, pode tomar a atitude que lhe convier, e ficará na ignorância do seu conteúdo.
- Arrancarei as informações através de torturas violentas - vociferou.
- Se é assim que pensa, o prejuízo será apenas seu - ripostou, sereno e seguro o Mentor. - A verdade é que Rosa Keller foi encontrada e é portadora de acusações muito graves, que pretende encaminhar ao Soberano das Trevas.
Novas ordens desconexas foram dadas, enquanto dizia:
- Ouçamos, então, o que os atrevidos têm a dizer - blasonou.
O ambiente modificou-se de maneira imediata. Os ruídos cessaram e a movimentação confusa parou ante a determinação do mandatário.
O venerando Guia, com voz pausada e muito sereno, esclareceu:
- Rosa Keller esteve por muito tempo prisioneira no castelo de Y, após a morte, de onde foi retirada pela misericórdia de Deus, não há muito. Desde aqueles dias algo distantes, quando foi execrada, que se entregou a aberrações que culminaram enlouquecendo-a. Abençoada pela desencarnação, foi recolhida por execrandos comparsas que a aprisionaram, desvitalizando-a através de vampirização contínua e de escabrosidades inimagináveis...
- Perco meu tempo com essa lengalenga - pôs-se a gritar entre blasfêmias e vitupérios. - Trata-se de religiosos melífluos, que se adentraram nos meus domínios sem o meu consentimento. Isso não ficará assim. Justiçarei todos os responsáveis pela invasão, assim como aos atrevidos que se me acercam.
O rosto, com as marcas da obscenidade, e o corpo, monstruoso e flácido, sacudiam as enxúndias, quando ele se agitava, ameaçador.
- Religiosos, sim, o somos, não melífluos, porque somos portadores de lucidez e coragem em nome de Jesus-Cristo, a quem temos o prazer de servir.
Ao ser pronunciado o nome do Mestre galileu, e o fora propositalmente, gargalhadas e ditos escabrosos estouraram na gruta imunda, enquanto o marquês, visivelmente descontrolado, ameaçava e socava o ar.
O diálogo prosseguiu algo excitante. O Mentor voltou à carga, esclarecendo:
- Como Rosa, que se encontra sob a proteção de nossa Instituição espiritual, demonstrou interesse em manter um novo encontro com o senhor marquês, pois que, ambos têm necessidade de um diálogo esclarecedor, aqui estamos atendendo-lhe a vontade.
- É muita petulância da venal e de sua parte ripostou áspero - pretender um encontro comigo, que governo grande área desta cidade. A troco de quê, ela e o senhor pretendem e esperam conseguir esse benefício de minha parte? Qual o meu lucro? Recordo-me da infame, que foi responsável por minha primeira prisão, caluniadora e louca, que sempre foi...
- Não posso ajuizar - elucidou o interlocutor - porquanto sou apenas o portador do requerimento, cuja resposta aguardo.
- E onde seria esse encontro? - interrogou com aspecto feroz. - Por que não veio até mim, aos meus domínios, conforme vocês o fizeram?
- Porque se encontra em tratamento de recuperação psíquica e perispiritual - esclareceu o irmão Anacleto. - Como o senhor marquês bem o sabe, a permanência em regiões como esta, por muito tempo, produz danos tão profundos nos tecidos sutis da alma, que a recomposição se faz dolorosa e demorada.
 Como aqui são realizadas operações, que alteram o comportamento e a estrutura profunda e sutil do perispírito, sob o seu comando, há de entender que o caso da nossa amiga não é muito diferente, exigindo diversos cuidados, que não podem ser negligenciados.
- E você acredita - reagiu feroz - que eu a irei visitar? Qual o meu interesse em encontrá-la, desde que ela é responsável pelo primeiro golpe que o destino desferiu-me?
- Confesso ignorar - concluiu o Amigo espiritual.
- A nossa tarefa aqui está concluída, porquanto a finalidade foi apresentada, dependendo do senhor marquês qualquer decisão.
Erguendo o corpanzil bestializado e atordoante, o suserano indagou, zombeteiro:
- E se eu não os deixar sair deste recinto?
- Penso que seria pior para o governante - redarguiu o visitante - porque iniciaríamos um trabalho de conversão em massa dos seus súditos, que se encontram saturados de loucura, entediados dos vis entretenimentos e sequiosos de paz, já que vivem exaustos e necessitados de amor e de renovação.
Ademais, podemos apelar para a proteção divina que nunca nos é escassa, desde que aqui estamos por vontade própria e não por afinidade de propósitos ou de interesses morais.
O marquês não esperava resposta tão lúcida e lógica, vendo-se obrigado a recuar, buscando parlamentar.
- Como passaram pelos meus vigilantes? - interrogou, irritado.
- Somente eles podem informá-lo - respondeu, sereno, o Benfeitor. –
Atravessamos todas as barreiras, assistindo ao desfile e, logo após, viemos a entrevista não programada, por sabermos que a nímia deferência do nobre marquês saberia distinguir quem somos em relação àqueles que habitam estes sítios por espontânea vontade, não ignorando que, nas Leis Soberanas, não vigem a violência nem a injustiça.
Desse modo, não titubeamos em passar pelas fronteiras do seu reino e apresentarmo-nos à sua magnanimidade.
- Magnânimo, eu? - estrugiu ruidosa gargalhada, no que foi acompanhado pela malta que o assessorava.
- Por que não? - insistiu o paciente amigo. - Não obstante o comportamento do senhor marquês durante largo período da sua vida, na etapa final, mesmo durante a revolução, opôs-se à pena de morte, o que lhe custou mais um encarceramento, propugnou pelo trabalho honrado e aguardou a desencarnação, mantendo os seus hábitos, porém de sentimentos alterados...
- Como conhece a minha vida? - voltou à carga.
- Além da vasta literatura a seu respeito - esclareceu tranqüilo - também possuímos outras fontes de informações, que se encontram escritas no psiquismo do senhor marquês.
Ele sorriu, algo confortado, para logo assumir a postura dominadora e cínica.
- Então, sou célebre na Terra? - indagou, fingindo-se surpreso.
- É claro que sim, conforme a sua contribuição literária e as suas experiências - retrucou o amigo dos infortunados. - Tristemente célebre, para utilizar-me de franqueza...
- Por que tristemente? - interrogou, frisando a palavra.
- Em razão da sua herança - explicou o bondoso interlocutor - em se considerando os valores preciosos de que o amigo era portador e poderia havê-los legado à Humanidade para dignificá-la e fazê-la crescer, em lugar do que fez.
Ante a verdade, embora enunciada de maneira gentil, a mole espiritual ali presente agitou-se e impropérios irromperam de todos os lados, sem alterar a serenidade do visitante, que prosseguiu:
- A razão, porém, da nossa visita, já foi explicitada. Aqui não nos encontramos para comentários a respeito do que nada temos a ver, especialmente no que se refere à vida e conduta do nosso marquês, mas para atender à solicitação de Rosa.
Com habilidade psicológica, o Mentor retornou ao tema central da visita, não se permitindo devanear ou sair da questão essencial.
Os jovens Espíritos seguravam os mastins com vigor, face à agitação que reinava na sala opressora.
- Para que os cães? - inquiriu, contrariado.
- Para qualquer emergência. Nunca sabemos o que pode acontecer em uma visita desta natureza. Desta forma, são tomadas medidas acautelatórias, a fim de serem evitadas surpresas indesejáveis.
Houve um silêncio de breves segundos que pareceram mais tempo, indefinido tempo.
Logo após, o marquês de Sade perguntou:
- Onde deveremos encontrar-nos, e quando?
- Amanhã pela madrugada, na conhecida Instituição de caridade espírita, já visitada anteriormente pelo senhor marquês, que na sua periferia instalou uma sede satélite desta suserania.
- Está muito bem informado - ironizou.
- Não poderia ser de outra forma, senhor. O Mestre sempre nos recomendou vigilância e oração.
- Não me interessa o que Ele disse ou propôs. Lá estarei, às 2h da manhã. Agora, podem ir-se.
A ordem foi apresentada com azedume e decepção. Talvez desejasse intentar o impedimento da saída do grupo, o que não se atreveu a fazer.
Observei, porém, que a Mentora e o médium Ricardo concentraram-se psiquicamente no reizete, que lhes captou a onda vibratória, reagindo quanto possível.
Certamente, o psiquismo do instrumento mediúnico, carregado de energia específica, porque ainda encarnado, alcançou o marquês, estabelecendo um tipo de imantação, que talvez viesse a ser utilizado oportunamente.
Sob a determinação do marquês, que destacou dois servidores para nos acompanharem até à saída da furna, foi-nos possível retornar ao exterior da comunidade infeliz, sem qualquer incidente ou anotação que mereça análise.
Utilizando-nos do mesmo recurso para voltar ao centro de atividades, logo nos encontramos na Instituição que nos hospedava, quando, então, profundamente sensibilizado, o Mentor agradeceu a proteção dos Céus utilizando-se do veículo da oração:
Jesus Amigo!
Profundamente sensibilizados retornamos ao ninho generoso onde nos acolhemos, agradecendo-Te as ricas bênçãos com que nos amparaste, auxiliando-nos na primeira etapa do labor com que nos honras em relação ao amanhã ditoso.
Somos incapazes de expressar os sentimentos de afeto e gratidão, as palavras de
que nos utilizamos, por absoluta pobreza de nossa parte, ainda caracterizados mais por necessidades que sempre Te apresentamos, do que por louvor que não sabemos ainda tributar.
Tu, porém, que nos penetras com a misericórdia que verte de nosso Pai, sabes, melhor do que nós próprios, o quanto de amor existe no âmago dos nossos seres e como temos dificuldade em expressá-lo.
Recebe, pois, deste modo, a nossa profunda reverência e emoção, que transformamos em tesouro de luz, para dizer-Te muito obrigado, Senhor, pela
felicidade de nos encontrarmos seguindo pela Tua senda, aquela que palmilhaste com amor e traçaste com segurança para os nossos Espíritos deficientes.
Esperando servir-Te sempre, nas pessoas dos nossos irmãos da retaguarda, entregamo-nos às Tuas disposições para o que consideres de melhor para realizarmos.
Abençoa-nos, portanto, por hoje, por amanhã e para sempre!
Quando terminou, tínhamos úmidos os olhos de vívida emoção.
Realmente, a tarefa que se iniciava, assinalada por incertezas, encerrava o seu primeiro passo com perspectivas mui felizes para o futuro.
À medida que a madrugada avançava, anunciando o dia cujo rosto começava a bordar de luz as sombras garças, deixamo-nos inebriar pela beleza da paisagem, e entregamo-nos às reflexões em torno do amor de Nosso Pai e Sua Sabedoria.


VISITA OPORTUNA
Quando retornávamos do palácio episcopal na direção da nossa sede de atividades, utilizando-me de alguns minutos que me pareceram oportunos, não tive relutância em interrogar o generoso Guia espiritual a respeito dos labores em andamento.
Sempre interessado em esclarecer e orientar, o Amigo sensato ouviu-me as indagações, e respondeu-as com a sua proverbial gentileza.
- Por qual motivo - inquiri, curioso - a visita à cidade perversa parecera ocorrer de forma tão fácil, tendo-se em vista as precauções tomadas, que poderiam ter sido evitadas?
- Diante do Mal - respondeu-me, afável - nunca devemos descurar dos cuidados hábeis que se tornam necessários, tendo-se em vista os recursos de que se utilizam aqueles que se conduzem equivocadamente. Destituídos de sentimentos de dignidade e de correção moral, os partidários da desordem não temem investir na violência, nem urdir planos astuciosos de forma a enredarem suas vítimas em potencial, que lhes tombam nas malhas da crueldade.
Assim, as providências tomadas tinham por objetivo situações de surpresa ou enfrentamentos mais difíceis. Porque a circunstância houvesse transcorrido de maneira favorável, evitou-se a utilização dos mastins, bem como dos jovens acostumados a embates específicos com os legionários da hediondez e do crime.
Ademais, a presença da venerável Mentora acarretara muitas bênçãos para o grupo de ação, envolvendo-o em vibrações defensivas especiais, que não chamavam a atenção dos vigilantes das entradas de acesso. Na etapa final, conforme recordamos, o marquês, aturdido e sem conhecimento do que se passara, responsabilizou-se pelo nosso afastamento da região sem qualquer empeço.
- Que tem a ver o marquês - voltei à carga, interrogando - na problemática de Mauro, junto a quem estamos trabalhando?
Atencioso, esclareceu:
- Havendo vivido os dias pré e napoleônicos, o marquês foi, igualmente, freqüentador da mansão de Madame X. Naquele lupanar de luxo eram permitidas e estimuladas práticas sexuais aberrantes, então na moda, havendo um comprometimento da mesma senhora com o infeliz autor e inspirador de inomináveis anomalias. A sociedade, quando vazia de sentimentos, sempre dispõe de tempo para elaborar propostas indecentes e inusuais no seu comportamento.
Os espaços abertos entre as guerras que o Corso mantinha em regime de continuidade, facultava aos seus exaustos oficiais a busca de experiências desafiadoras e estimulantes para os nervos cansados e os ideais combalidos. Dessa maneira, a residência da extravagante senhora era palco para os desatinos mais absurdos que o comércio da luxúria e da corrupção pode oferecer aos seus aficionados.
- Equivale dizer - volvi à indagação - que Madame privou de relacionamentos com o marquês de Sade?
- Sem lugar a dúvidas - ripostou, seguro. - A célebre cafetina fizera-se centro de interesse da maioria dos desvariados que residiam em Paris e alguns que moravam no estrangeiro, visitando-a com freqüência. Sua Mansão, de triste memória, nas cercanias da Capital da França, era freqüentada por numeroso cortejo de insensatos de ambos os sexos, que ali davam vazão aos seus desejos doentios ou extravagâncias emocionais.
Desfilavam, durante os seus bailes de máscaras, personalidades da aristocracia, da Política, da Religião, da intimidade do imperador, saturadas de prazeres que a vida insensata lhes impunha.
Nessas oportunidades, muitos convidados apresentavam-se vestidos de animais, em dias especiais para a exorbitância, e, ante o ensurdecer de músicas atordoantes, entregavam-se às perturbações que lhes impunham a imaginação doentia.
 Noutras vezes, animais em fase de cio eram colocados em improvisada arena para a relação sexual imposta pelo instinto, enquanto os espectadores, estimulados e enlouquecidos, tentavam repetir as cenas, que acompanhavam, mediante comportamentos escabrosos, até a exaustão, tombando, desfalecidos ou embriagados, e desligando-se do corpo lasso em torpor, sob a ação de sequazes desencarnados com os quais se homiziavam em regiões espirituais odientas.
Silenciou por um pouco, diminuindo a gravidade da narração, pelo seu conteúdo de estupefação e, medindo as palavras, voltou a explicitar:
- Por sugestão do marquês de Sade, Madame X transformou o porão da herdade em pequenas celas, utilizando alguns cômodos que se lhes assemelhavam, onde eram praticadas verdadeiras atrocidades sadomasoquistas.
Diversos pacientes ali experimentaram o horror em tal escala de alucinação, que alguns não conseguiram sobreviver, falecendo nos hediondos catres transformados em câmaras medievais de aflições, enquanto outros, enlouquecendo, eram encaminhados aos lares ou aos manicômios, não mais recuperando a saúde mental.

Infelizmente, descendo a escalas mais vis, muitos alucinados se entregavam a atos abomináveis com animais amestrados que, no seu primarismo feria-os, dilacerava-os, constituindo essas monstruosidades razões para comentários nos diversos grupos sociais que tinham conhecimento da sua ocorrência e anuíam na grande maioria.
É certo que Madame, mais de uma vez, esteve a braços com a polícia do Estado, conseguindo liberar-se com facilidade, graças aos seus protetores que lhe freqüentavam o lôbrego bordel.
A inexorabilidade orgânica, o seu processo de envelhecimento e de desgaste, a decadência do império napoleônico contribuíram para alterações profundas nos hábitos dominantes na época, e a residência da mulher famigerada, que caiu em desgraça, foi tomada, e ela, abandonada pelos seus amigos, também infelizes e desatinados, terminou os dias na obscuridade e na solidão.
Podia perceber quanto a narração lhe constituíra um verdadeiro fardo, porque o Benfeitor apresentava-se ligeiramente pálido. Nada obstante, concluiu:
- O marquês, que teria mudado de comportamento na velhice, conforme alguns dos seus biógrafos, o que para nós carece de fundamento, prosseguiu mais moderado na sua loucura até que foi arrebatado pela morte e conduzido para a cidade perversa, de onde procedera, ali dando curso às suas alucinações e recebendo, logo depois, Madame X...
Houve um silêncio quase constrangedor. Dilermando, o amigo gentil, que se mantinha calado, demonstrando compaixão e surpresa ante a narração, por sua vez, timidamente indagou:
- Esta é a primeira reencarnação de Madame, após as experiências recém narradas?
Pacientemente, o Mentor explicou:
- Em verdade, esta é a terceira tentativa concedida ao infeliz Espírito, a fim de recuperar-se e aprender a respeitar as Soberanas Leis da Vida.
Duas vezes retornou com a organização fisiológica feminina, na França, assinalado por terríveis marcas perispirituais que lhe deformavam a instrumentalidade física, havendo sido vítima de estupros e crueldades provocados por famigerados mendigos e ciganos das áreas onde foi acolhido pela misericórdia de Deus.
Desencarnou em estado lamentável, porém com menos culpa, retornando, à mesma região espiritual que o acolhera anteriormente. Mais tarde, no Brasil, com expressiva legião de Espíritos franceses transladados para as terras do Cruzeiro do Sul, o que vem ocorrendo com certa periodicidade, esteve mergulhado na organização masculina, vivendo tormentos inauditos, algumas vezes superados, outras não, para recomeçar, na atualidade, novamente na mesma polaridade, porém vinculado à Religião dominante, a que se dedicara irregularmente em passado não muito distante.
Os vícios, que se encontram arraigados no imo, levaram-no aos desaires de que tem sido vítima.
- E a mãezinha - voltou a indagar o amigo discreto - desde quando, se é possível informar-nos, labora em favor da sua libertação?
- Desde os dias de S. Francisco de Assis... Quando, em posição de destaque na Itália, ele ouviu falar sobre o santo da Úmbria, desejou, sinceramente, segui-lo.
Protelando a decisão, quando se resolveu por integrar a ordem franciscana, o Poverello já havia deixado o corpo. Embora o fervor que dominava muitos dos seus seguidores, a ausência física do discípulo amado de Jesus facultou que alguns exaltados e menos equipados para o ministério introduzissem a vaidade, o poder temporal, a coleta de recursos monetários para a Ordem, e a decadência se anunciou...
Nesse comenos, o nosso amigo logo derrapou vitimado pela ambição -e esqueceu dos projetos iniciais, assim contribuindo em favor da derrocada dos elevados propósitos da Obra que nascera no coração do amor e se alongara no mundo pelas palavras de fé e pelos atos de caridade... Desde ali, portanto, sua mãezinha, profundamente vinculada a Jesus e à Irmã Clara, vem lutando em favor da sua libertação, travando agora a batalha final a que se entrega com total dedicação, e para a qual fomos convidados...
Extasiei-me ante a explicação, por poder aquilatar a força e a tenacidade do amor que não mede esforços, não tem limites, não desiste, vencendo todos os óbices para alcançar a meta da felicidade que se impõe.
Da forma como me chocaram as informações do bordel de luxo e a conseqüente desgraça de Madame X, dando-me conta que hoje se multiplicam inumeráveis deles na Terra, cujos proprietários e divulgadores são ex-residentes da cidade perversa, onde haurem constante inspiração, e ali são levados durante o sono fisiológico em desdobramentos espirituais, a repugnância e dor eram agora substituídos pela ternura e alegria ante a força perseverante do amor de mãe, que se atirava no rumo do abismo para resgatar o filho desvairado que Deus lhe emprestara através das reencarnações.

O êxito, que não conseguira através da educação, quando no corpo físico, dos exemplos luminosos de carinho e de renúncia, permanecia buscando agora, em outra dimensão através de tentativas incessantes, na condição de anjo protetor que não se cansa de ajudar.
Ali estava o mais belo argumento prático contra o tradicional dogma do Inferno para os maus e do Céu para os bons. Aquela mãe, que vivia o céu interior, não se permitia plenitude enquanto não arrancasse o filho amado do seu inferno de paixões internas, a fim de rumarem ambos de mãos dadas para o Paraíso, onde o trabalho e a misericórdia são o cotidiano de todos.
Chegamos à querida Instituição, sempre movimentada. Surpreendia-me por verificar que não havia horário em que não estivessem em movimentação trabalhadores de várias procedências espirituais e necessitados de ambos os planos da Vida, buscando a austera Entidade, que a todos albergava com carinho, misericórdia e iluminação de consciências, que parecia ser-lhe a meta maior, a fim de proporcionar a libertação da ignorância a todos aqueles que a buscavam.

Em realidade, não é outra a finalidade do Espiritismo, despertando o Espírito para as suas responsabilidades e cumprimento dos deveres, conscientizando-o do significado da sua existência, quando no corpo, da sua realidade, quando desencarnado, a fim de avançar sem impedimento no Grande Rumo...
A noite descia calma, compensando a ardência do dia e envolvendo a Natureza nos seus tecidos escuros, veludosos que se adornavam de estrelas faiscantes.
Pairava no ar a expectativa dos próximos acontecimentos, que aguardávamos entre preces e esperanças de êxito.
O vaivém de Entidades desencarnadas era surpreendente, caracterizando o esforço de abnegados Mensageiros da Luz que não descansam, sempre afeiçoados à ação da caridade e do Bem inefável.
Encontrava-me à porta da sala de atividades mediúnicas, onde se processavam também atendimentos espirituais cirúrgicos no perispírito de inúmeros sofredores do Mais Além, assim como de portadores de transtornos obsessivos profundos.
O irmão Anacleto dialogava com alguns Mentores em torno das questões pertinentes aos deveres a que se entregavam. Pude perceber o respeito de que desfrutava o amoroso Guia, sempre sábio nas suas decisões, e profundo conhecedor do espírito humano, o que lhe facilitava o labor a que se afeiçoava.
Nesse ínterim, fomos surpreendidos com a visita do nobre Espírito Dr. Bezerra de Menezes que chegou, provocando expressiva alegria. Podia-se perceber quanto a veneranda Entidade é amada por todos, em razão da significativa folha de serviços prestados à Humanidade.
À paz que reinava entre nós associou-se o inefável júbilo pela presença do amado Mentor.
Todos nos acercamos, formando um círculo à sua volta, e ele, sem ocultar, também, a mesma satisfação, pareceu justificar-se lamentando não haver informado antes do seu plano de passar pela Instituição, a fim de participar do labor que estava programado em relação ao marquês de Sade.
- Tratando-se de uma questão palpitante - elucidou com modéstia - qual a dos distúrbios na área do sexo, todos estamos muito interessados em aprender e conseguir soluções, socorrendo aqueles que se extraviaram, perdendo-se no labirinto das paixões mais primevas, de maneira que se possam levantar do charco pestilencial em que se encontram, aspirando o oxigênio abençoado do planalto da fé libertadora.
Depois de pequena pausa, prosseguiu:
- O sexo, na Terra, ainda é instrumento de alucinação, quando deveria ser abençoado mecanismo de vida, construindo corpos que se transformam em oficinas de iluminação e escolas de sublimação para os Espíritos em processo de crescimento na direção de Deus.
 Graças ao fascínio que se deriva do prazer imediato, não poucos indivíduos encarceram-se no gozo, distantes da responsabilidade e do dever para com o seu parceiro, ou as conseqüências que sucedem ao ato sexual, quais a fecundação, o aprisionamento na afetividade atormentada, abrindo espaços para as ações criminosas do aborto delituoso e da separação dilaceradora dos sentimentos.
No seu aspecto mais grosseiro imana o indivíduo às paixões asselvajadas, fixando-o nas faixas primárias do instinto, sem que a razão ou o discernimento possa contribuir em favor da plenitude, antes sacrificando aquele que se lhe entrega irracionalmente.
"Havendo sido cientificado pela benfeitora madre Clara de Jesus a respeito do encontro terapêutico programado para esta noite, não me pude furtar ao desejo de participar do mesmo, aprendendo sempre mais e penetrando no âmago da palpitante questão que será abordada."
Sentindo-se inteiramente à vontade, facultou que o nosso Instrutor solicitasse-lhe a cooperação em torno de uma breve dissertação a respeito da problemática do sexo e da obsessão, a fim de que, não somente nós, que nos encontrávamos vinculados ao projeto em desdobramento, mas também outros Benfeitores espirituais e amigos presentes, nos beneficiássemos com a sua palavra sábia e a sua proverbial experiência.
Isso posto, e porque todos anuíssemos em um misto de felicidade e gratidão, o Mentor paternal sorriu, generoso, e convidou-nos a sentar, colocando-se próximo de delicado móvel que se transformaria em improvisada tribuna, assim dispondo-se a entretecer as considerações solicitadas.
Todos estávamos comovidos e atentos. Podia-se ouvir o pulsar de cada coração em clima de festa.
Dúlcidas vibrações bailavam na atmosfera sutil da sala de intercâmbio com o Mundo Maior.
Expectantes, portanto, aguardamos.




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Calendário Assistência 2017

TENDA ESPÍRITA MAMÃE OXUM

CALENDÁRIO ASSISTÊNCIA - 2017.

C.E. Miguel Arcanjo e Tenda Espirita Mamãe Oxum-

Rua Francisco Framback, 91 E – Cascatinha - Petrópolis - RJ

ABRIL

MAIO

JUNHO

23 – Reabertura do Terreiro às 20h – Saudação à Ogum

02 – sexta-feira – Pretos Velhos

28 - sexta-feira - Exus

05 - sexta-feira – Pretos Velhos

07 – quarta-feira – Estudo da Umbanda

10 - quarta-feira- Estudo da Umbanda

09 – sexta-feira – Saúde

12 - sexta-feira – Saúde

13 – terça-feira – Saudação Aos Exus – Bênção dos Pães – 20h

13 – sábado – Saudação aos Pretos Velhos

16 – sexta-feira – Não tem Gira

17 – quarta-feira – Doutrina - Vovó Catarina

21 – quart-feira – Doutrina – Vovó Catarina

19 – sexta-feira – Caboclos

23 – sexta-feira – Caboclos

24 – quarta-feira –Saudação à Sta. Sara,

e Povo Cigano

28 – quarta-feira – Doutrina

26 – sexta-feira - Malandros

30 – sexta-feira - Exus

JULHO

AGOSTO

SETEMBRO

05 – quarta-feira – Doutrina

02 – quarta-feira – Doutrina

01 – sexta-feira – Pretos Velhos

07 – sexta-feira – Pretos Velhos

04 – sexta-feira – Pretos Velhos

06 – quarta-feira – Doutrina

12 – quarta-feira – Estudo da Umbanda

09 – quarta-feira – Estudo da Umbanda

08 – sexta-feira – Saúde

14 – sexta-feira – Saúde

11 – sexta-feira – Saúde

13 – quarta-feira – Estudo da Umbanda

19 – quarta-feira – Doutrina – Vovó Catarina

16 – quarta-feira – Saudação à Obaluaê e Omolu

15 – sexta-feira – Caboclos

21 – sexta-feira – Caboclos

18 – sexta-feira – Caboclos

20 - quarta-feira – Doutrina – Vovó Catarina

26 e 28 – Não funcionaremos

23 – quarta-feira – Doutrina – Vovó Catarina

22 – sexta-feira – Não Tem Gira

30 – Domingo – SEMINÁRIO

25 – sexta-feira – Malandros

24 – Domingo – Saudação à Ibeijada - às 17h

30 – quarta-feira - Doutrina

27 – quarta-feira – Distribuição Doces

29 – sexta - Exus

OUTUBRO

NOVEMBRO

DEZEMBRO

.04 – quarta-feira – Doutrina

01 – quarta-feira – Terreiro Fechado

02 - Confraternização

06 – sexta-feira – Pretos Velhos

03 – sexta-feira – Não tem Gira

08 – sexta-feira – Saudação à Oxum e bênção dos Pretos Velhos – 20h

11 – quarta-feira - Não tem Esudo Umb.

08 – quarta-feira –Doutrina

09 – Oferendas na Praia – saída 17h

12 – quinta-feira – Cachoeira / Mata

10 - sexta-feira – Saúde

13 – sexta-feira – Não tem Gira

15 – Feriado – Saudação aos Malandros

18 – quarta-feira – Estudo da Umbanda

17 – sexta-feira – Caboclos

20 – sexta-feira – Caboclos

22 – quarta-feira – Estudo da Umbanda

25 – quarta-feira – Doutrina – Vovó Catarina

24 – sexta-feira – Exus

27 – sexta-feira - Ciganos

29 – quarta-feira – Doutrina – Vovó Catarina

A giras de sextas-feiras têm início às 20 horas. As fichas são distribuídas a partir de 19:45 até as 21:30. As pessoas que chegarem após este horário receberão apenas o passe, sem consulta.

Nossa casa não cobra consultas nem trabalhos, porém aceitamos colaboração de materiais de uso como velas, fósforos, charutos, fumos, etc...

ATENÇÃO: NÃO É PERMITIDO PARA ATENDIMENTO, PESSOAS COM MINI-SAIAS, SHORTS OU BERMUDAS CURTAS, BLUSAS MUITO DECOTADAS OU MINI-BLUSAS, CAMISETAS TIPO MACHÃO.

A CARIDADE NÃO SERÁ NEGADA, PORÉM RESPEITEM O TEMPLO RELIGIOSO.

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